Crise no Iêmen força mães solo a cata de plástico para sobrevivência
Isolada por conflitos recentes, Taiz abriga milhares de deslocados que enfrentam fome extrema e frio rigoroso sem assistência humanitária.

A cidade iemenita de Taiz tem sido cenário de extrema vulnerabilidade para famílias que abandonaram suas casas fugindo da violência. Entre os afetados estão duas mães solo recém-chegadas ao município, que agora dependem da coleta e venda de embalagens plásticas para tentar alimentar e aquecer seus filhos em meio a condições precárias de moradia.
Impacto dos confrontos na região
Segundo dados da Organização das Nações Unidas, o município abriga cerca da metade dos 300 mil moradores deslocados por causa da onda recente de hostilidades no país. O cerco imposto desde o início de outubro bloqueia tanto a circulação de civis quanto a chegada de comboios com suprimentos essenciais, agravando o isolamento da população local.
Fatima Abdullah Qassem relatou a fuga a pé realizada durante a madrugada, quando os confrontos atingiram o vilarejo de al-Sayahi, na zona oeste de Taiz. Após dormirem dois dias ao relento, ela e seus entes queridos passaram a ocupar uma construção parcialmente destruída, coberta apenas por proteções improvisadas.
“O prédio é aberto, veja, é aberto, com lonas improvisadas. Colocamos lonas, e está congelante. Não temos cobertores, não temos nada, juro por Deus”, afirmou Qassem, mãe de oito filhos que já havia perdido um deles devido a uma mina terrestre em 2017.
Rotina de escassez e trabalho infantil
Antes da mudança forçada, Qassem e outra vizinha, Intizar Ahmed Saeed, comerciavam hortaliças. Com o agravamento da situação financeira, a atividade foi substituída pela cata de plástico, rendimento insuficiente para cobrir as despesas básicas da casa.
“Minha vida é uma luta todos os dias, por Deus, uma luta. Estou dizendo, trabalho por 1.500 riais (US$ 0,96), e não é suficiente. Saio pedindo batatas, tomates, pimentas… O homem da casa (referindo-se ao filho dela) tem 15 anos e, atualmente, não há trabalho”, declarou Saeed, viúva e mãe de sete crianças.
Escalada geopolítica e humanitária
Organizações de socorro internacional apontam que o recrudescimento bélico intensificou um quadro que já era considerado uma das maiores emergências sociais do planeta. O confronto opõe forças governamentais — respaldadas pela Arábia Saudita — e o movimento houthi, alinhado ao Teerã, em um cenário geopolítico que também envolve tensões com Estados Unidos e Israel.
As manobras militares recentes na rota marítima do Estreito de Bab el-Mandeb resultaram na quebra definitiva do cessar-fogo que vigorava desde 2022, mediado internacionalmente. Com o fim da trégua e o recuo dos acordos diplomáticos, civis continuam a arcar com o peso do conflito deflagrado após a expulsão governamental de Sanaa em 2014.


