Daniel Vorcaro avaliou compra de maleta espiã com advogado
O empresário Daniel Vorcaro, ex-proprietário do Banco Master, avaliou a aquisição de um sistema avançado de espionagem móvel capaz de interceptar ligações e acionar microfones de celulares à distância. O tema foi debatido em abril de 2024 durante uma conversa com o advogado Walfrido Warde, cujos registros foram identificados pela Polícia Federal.
Mensagens revelam interesse em equipamento de espionagem
A comunicação entre a dupla ocorreu logo após um encontro jurídico em Londres, que reuniu integrantes de tribunais superiores e contou com apoio do Banco Master. Pouco tempo depois de agradecer pela oportunidade, o advogado compartilhou com Vorcaro uma notícia sobre a aquisição de um aparelho de monitoramento pelas Forças Armadas brasileiras.
Ao receber o material, o ex-banqueiro perguntou: “Fala irmao. obrigado por ter vindo. Essa é minha tb?”. Em seguida, Warde indagou: “Essa máquina? Vamos comprar uma?”. A resposta de Vorcaro foi direta: “Vamos”. O advogado encerrou o diálogo reagindo com uma figura de coração. Apesar do alinhamento registrado nas mensagens, não há comprovação documental de que o negócio tenha sido de fato concretizado.
Como opera o sistema de interceptação
O aparelho em questão é o GI2, desenvolvido pela empresa Verint (atualmente chamada de Cognyte). O dispositivo funciona de maneira integrada ao software FirstMile, programa voltado para o rastreamento de dados de geolocalização de celulares.
De acordo com especificações técnicas e materiais comerciais, o GI2 opera simulando uma torre de telecomunicações com alcance estimado de até um quilômetro. Ao forçar a conexão de aparelhos que estejam nesse perímetro, a ferramenta permite:
- Capturar áudio de conversas telefônicas em tempo real;
- Rastrear troca de mensagens de texto;
- Coletar coordenadas de deslocamento geográfico;
- Ativar o microfone de telefones móveis sem que o usuário perceba.
Histórico da tecnologia no país e questionamentos
Equipamentos dessa mesma linha foram adquiridos pelo Exército brasileiro no ano de 2018, durante o período de intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro. Na ocasião, o contrato totalizou cerca de US$ 10,8 milhões — valor equivalente a R$ 54,7 milhões na conversão recente —, montante que englobou um pacote amplo com plataformas como FirstMile, WebAlert e FaceDetect.
A aplicação desses sistemas virou alvo de escrutínio no Legislativo. Em fevereiro de 2024, a deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL) protocolou o Requerimento de Informação nº 15/2024 junto ao Ministério da Defesa, cobrando explicações formais sobre as justificativas contratuais, os prazos de uso da tecnologia fornecida pela Verint Systems e possíveis compartilhamentos de informações com órgãos estaduais ou municipais, tendo em vista as apurações sobre o uso irregular de softwares espiões no âmbito da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).
Até o momento, os autos da investigação confirmam apenas a discussão sobre a compra do dispositivo tático entre os interlocutores, sem evidências de uso efetivo do sistema para espionar terceiros por parte do ex-banqueiro. As defesas de Vorcaro e Warde não se manifestaram publicamente sobre o teor das mensagens.



