28/10/2026

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Reeleição histórica de Lula repercute na Europa e vira símbolo global

Ao derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no último domingo (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quebrou um paradigma: tornou-se o primeiro candidato ao Planalto a terminar o primeiro turno da eleição atrás de seu adversário e, ainda assim, superá-lo na segunda rodada do pleito.

Conquista inédita e virada nas urnas

Lula garantiu um inédito quarto mandato como presidente ao receber 64.256.232 de votos (51,79% dos válidos). Ao mesmo tempo, seu oponente obteve 59.826.041 (48,21% dos válidos). Na primeira etapa da eleição, no entanto, Flávio havia conquistado 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula.

Para especialistas ouvidos pela CNN Brasil, o triunfo de Lula é resultado de uma mobilização civil há muito tempo não vista no campo progressista no país.

De acordo com o cientista político Rafael Cortez, em alguma medida, “a esquerda, quando encontrou a melhor maneira de se organizar, ou lidar com redes sociais e o potencial de mobilização que tem, conseguiu se mobilizar e ir para as ruas depois de um longo período em que as ruas pareciam não ser mais domínio progressista no Brasil“.

A jornalistas, o próprio presidente Lula afirmou que, no segundo turno, “a população assumiu a responsabilidade de dizer que a eleição é uma coisa de quem se preocupa com o país“. Segundo aliados do petista, ele mesmo teria se surpreendido com as mobilizações “orgânicas” que ocorreram nas últimas semanas de campanha.

Impacto geopolítico e contraste sul-americano

A reeleição do petista vai na contramão do que acontece na América do Sul, que elegeu nomes da direita como Javier Milei, na Argentina, Santiago Peña, no Paraguai, e Rodrigo Paz, na Bolívia. Ainda segundo Cortez, por essas razões, a vitória de Lula “ultrapassa as fronteiras internacionais“.

“Isso tem a ver com esse problema em comum que as democracias contemporâneas e o setor progressista, em particular, estão enfrentando, e além do fato da vitória do Lula representar uma resistência ao trumpismo, sobretudo pensando no contexto da América do Sul e América Latina“, explica.

O cientista político Mauricio Santoro, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, corrobora a ideia no que diz respeito ao impacto internacional da eleição brasileira: “Diante de uma crise global da democracia, o Brasil foi um dos poucos países em que a extrema-direita foi derrotada nas urnas”.

“Neste ano, isso só aconteceu na Hungria e na Sérvia, mas que não têm a mesma expressão política e econômica do Brasil, que é uma das dez maiores economias do mundo“, emendou.

O gesto do “L” ganha a Europa

A partir das proporções que tomaram os atos públicos e manifestações realizadas no Brasil em prol de Lula e do ineditismo da virada, líderes políticos internacionais passaram a adotar o sinal do “L”, feito com as mãos e utilizado por manifestantes e eleitores para demonstrar apoio ao candidato petista.

A catalã Ada Colau, ex-prefeita de Barcelona e ativista social, compartilhou nas redes sociais, pouco depois do resultado do segundo turno, um vídeo em que pede para que apoiadores “façam o L”.

Em ato na cidade espanhola, ela declarou: “Vamos levantar o braço com o L de Lula, pela esperança, Palestina livre, por Lula no Brasil, pela esperança e pela Frente Ampla no dia 29 de novembro. Vamos ganhar, companheiras!”.

Na avaliação do professor de Relações Internacionais da ESPM Gunther Rudtiz, “o gesto de ‘fazer o L’ ultrapassou seu significado original de apoio a Lula e começou a funcionar como um símbolo de identificação política internacional. Entretanto, mais importante que o símbolo, é a experiência de mobilização eleitoral brasileira”.

“A campanha mostrou a capacidade de combinar mobilização da sociedade civil, manifestações de rua e utilização intensiva das redes sociais para ampliar o engajamento político. Essa combinação despertou interesse de movimentos europeus que enfrentam desafios eleitorais semelhantes, especialmente na Espanha e na França“, completou.

Repercussão entre líderes mundiais

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, usou as redes sociais para exaltar a vitória de Lula: “Grande vitória de Lula! O que aconteceu no Brasil acontecerá na Espanha. A virada do progressismo global acaba de começar!”, escreveu.

O presidente francês, Emmanuel Macron, seguiu os passos do colega espanhol: “A França e o Brasil têm muito a construir juntos. Diante dos grandes desafios do nosso tempo, reforcemos nossa parceria estratégica e façamos viver a amizade entre nossos dois países a serviço de um mundo mais justo“, registrou.

Gunther ressalta também a dimensão do papel do Brasil no contexto global: “Estamos falando de uma das maiores democracias do mundo, e o resultado de uma eleição presidencial brasileira tem repercussões que ultrapassam a América Latina. A vitória de Lula ganha ainda mais significado por ocorrer em um contexto internacional de crescente polarização política“.

No entanto, ele ressalta que “cada país tem suas próprias condições políticas, econômicas e sociais”.

“O que o resultado brasileiro oferece, neste momento, é uma referência política e uma experiência de mobilização que outros movimentos podem tentar adaptar às suas realidades“, concluiu.