26/10/2026

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Estudo aponta queda no QI das novas gerações e especialistas explicam o fenômeno

Pesquisas recentes indicam uma redução no Quociente Intelectual das gerações mais jovens, fenômeno conhecido como efeito anti-Flynn. O levantamento, conduzido na Turquia entre 2016 e 2021 e divulgado no Journal of Theoretical Educational Science, intensifica as discussões científicas sobre os elementos que influenciam essas pontuações.

Limitações dos testes tradicionais de inteligência

O neuropediatra Vinícius Spazzapan esclarece que a ferramenta de avaliação de QI surgiu na virada dos séculos XIX e XX com o objetivo de auxiliar alunos com dificuldades escolares. No entanto, o especialista ressalta que o método possui restrições inerentes. “Ela não dá conta de avaliar toda a inteligência humana, ela avalia algumas questões relacionadas à inteligência, mas a criatividade, a imaginação, os sonhos, a performance até mais física, motora, não são muito bem avaliados pelo teste de QI”, aponta.

Para ilustrar a questão, o médico utiliza uma comparação prática: “Muitos pais me procuram perguntando sobre o QI e às vezes eu faço uma seguinte analogia, uma metáfora para tentar exemplificar melhor: o martelo serve para martelar, não serve para apertar um parafuso. Assim como uma chave Philips aperta um parafuso e não martela”. Ele complementa que “usar apenas o teste de QI não vai conseguir identificar todos os fatores que leva uma geração a não progredir, temos que entender os motivos dos caminhos do que está acontecendo”.

Impacto do ambiente, sedentarismo e telas

O desenvolvimento cerebral está intrinsecamente ligado à mente, ao corpo e ao contexto social. Spazzapan aponta que a falta de movimento corporal, agravada pelo uso excessivo de smartphones e computadores, prejudica competências fundamentais. “Se o nosso corpo não se movimenta, o aprendizado relacionado ao aprendizado e autoconhecimento corporal ficam deficitários”, declara.

Para contornar esse cenário, o médico sugere que a tecnologia seja usada com moderação e acompanhamento familiar. “Mesmo quando for consumir alguma tela com o filho, que seja ali acompanhado, que assista o ‘programinha’ juntos. É muito mais importante ter os pais juntos, do que simplesmente entregar a tela e ir fazer outra coisa”, afirma. Além disso, ele recomenda incentivar atividades analógicas, leitura, criatividade e a ocupação de espaços públicos culturais, como parques e museus.

Sobre o Quociente Emocional, o neuropediatra observa um crescimento expressivo nos diagnósticos de transtornos e relata a impressão de que “essa nova geração está menos sensível, menos empática, mais fechada em si mesma”.

Análise crítica sobre as metodologias de pesquisa

Por outro lado, a Mensa Brasil — entidade que congrega pessoas com altas habilidades — aponta que o estudo turco apresenta limitações metodológicas importantes. Patrícia Schneider, secretária, psicóloga, neuropsicóloga e neuropsicopedagoga da instituição, destaca que a análise englobou apenas três escolas de uma mesma localidade e comparou grupos distintos ao longo do tempo sem análises inferenciais robustas.

A especialista menciona que reduções pontuais, inclusive aquelas registradas durante a pandemia, não autorizam conclusões precipitadas. “Portanto, não seria cientificamente correto concluir que a Covid-19 tornou as crianças menos inteligentes”, pontua. Ela reforça que a inteligência resulta de uma combinação entre genética e fatores externos: “A inteligência possui componentes hereditários importantes, mas seu desenvolvimento também é influenciado pelo ambiente. Educação, saúde, nutrição, estímulos cognitivos e oportunidades de aprendizagem fazem diferença. Gosto de pensar que o potencial intelectual é como uma semente: a genética participa de suas características, mas o ambiente influencia as condições em que ela poderá florescer”.

Superdotação e inteligência emocional no Brasil

Atualmente, o Brasil ocupa a oitava posição no ranking mundial da Mensa, contando com 7 mil brasileiros identificados com superdotação, dos quais 3,1 mil são crianças e adolescentes. Patrícia enfatiza que altas habilidades não equivalem a um desempenho acadêmico perfeito em todas as disciplinas, podendo coexistir com transtornos de aprendizagem, como o TDAH e o autismo.

“Não podemos confundir ausência de desempenho excepcional com ausência de potencial excepcional. Identificar a superdotação não é procurar crianças perfeitas, mas compreender diferentes maneiras de aprender, pensar e se desenvolver”, afirma. No tocante ao QE, ela esclarece que um vasto vocabulário emocional não garante, necessariamente, facilidade para gerenciar os próprios sentimentos: “Conhecer o vocabulário das emoções não significa, necessariamente, saber lidar melhor com elas”.