Diplomacia agrícola não pode parar, seja quem for o presidente eleito
No agro, diplomacia não pode trocar mercado por palanque. O voto passa e o mercado fica. A eleição presidencial entrou na reta mais tensa, mas há uma pauta que o agro não pode tratar como acessório de campanha: a diplomacia agrícola.
Seja qual for o resultado do segundo turno, o Brasil não tem o direito de andar para trás na abertura de mercados, na defesa sanitária, na negociação contra barreiras externas e na construção de confiança com compradores internacionais.
O agro pode até ter preferência política, e tem. A Frente Parlamentar da Agropecuária já deixou claro seu lado nesta disputa, mas o comércio de alimentos é maior do que a lógica do palanque.
Entre no grupo
Carne, frango, soja, milho, café, mel, frutas, suínos, madeira, pescado, tabaco e lácteos não embarcam com adesivo partidário. Embarcam com certificado sanitário, preço competitivo, escala, regularidade, rastreabilidade e confiança. E confiança internacional é uma construção lenta e perde-se muito mais rápido do que se conquista.
China, Estados Unidos e o pragmatismo que paga a conta
Um eventual governo de Flávio Bolsonaro tende a aproximar o Brasil dos Estados Unidos. Isso está no discurso político, na base eleitoral e no alinhamento ideológico do campo conservador.
Mas daí a imaginar que o Brasil poderia se dar ao luxo de tensionar sua relação comercial com a China vai uma distância grande. No agro, essa distância se mede em navios, contratos e bilhões de dólares.
A China é o grande destino de produtos agropecuários brasileiros. É compradora decisiva de soja, carnes e outros itens que sustentam renda no campo, movimentam portos, cooperativas, agroindústrias e municípios inteiros.
Por isso, a avaliação de especialistas ouvidos pelo setor é que a relação comercial com os chineses deve ser preservada, mesmo que a relação política mude de temperatura.
O embaixador Rubens Barbosa resumiu o ponto com objetividade: o agro não aceitaria medidas que provocassem retaliação de Pequim. Ninguém que conhece a força da pauta exportadora, imagina o setor aplaudindo uma crise artificial com seu maior comprador.
A especialista em China, Larissa Wachholz, também chama atenção para outro ponto: talvez o comércio siga, mas os investimentos chineses podem olhar o Brasil com mais cautela se o país entrar em rota de alinhamento automático com Washington.
Esse é o ponto sensível. Produto vendido pode continuar fluindo. Investimento, infraestrutura, energia, fertilizantes, biocombustíveis e cadeias estratégicas dependem de uma palavra que o investidor gosta muito e que Brasília às vezes esquece: previsibilidade.
Sanidade é passaporte
O primeiro pilar dessa diplomacia é a sanidade. O Brasil vende porque produz muito, mas também porque construiu credibilidade sanitária em várias cadeias. Esse trabalho envolve o Ministério da Agricultura e Pecuária, os serviços estaduais de defesa agropecuária, laboratórios, fiscais, agroindústrias, produtores e setor privado.
Quando um país abre mercado para carne, mel, lácteos ou pescado, ele não está apenas comprando produto. Está confiando em um sistema e sistema não pode depender do humor da eleição.
A rede de adidos agrícolas também entra nessa engrenagem. São eles que ajudam a destravar impasses, responder exigências, acompanhar auditorias e atuar onde a negociação acontece de verdade: no detalhe técnico. É ali que o agro ganha ou perde mercado.
Barreiras mudaram de roupa
O segundo pilar é a defesa contra barreiras não tarifárias. Hoje, o protecionismo raramente aparece com esse nome. Ele vem disfarçado de norma ambiental, exigência sanitária, regra de rastreabilidade, padrão privado, certificação climática, bem-estar animal ou requisito documental.
Algumas exigências são legítimas, outras protegem produtores locais com verniz técnico. O Brasil precisa saber diferenciar uma coisa da outra e responder com dados, não com reclamação.
A União Europeia é o exemplo mais claro. O Regulamento Antidesmatamento, as exigências de rastreabilidade e a pressão por comprovação ambiental vão continuar, independentemente de quem esteja no Palácio do Planalto.
Se o Brasil quiser vender para mercados exigentes, vai precisar demonstrar origem, controle, sustentabilidade e cumprimento de regras. Não adianta dizer que o agro brasileiro é eficiente, é preciso provar.
Diplomacia científica: a arma que o Brasil usa pouco
É aqui que entra a diplomacia científica. O Brasil tem uma das maiores experiências do mundo em agricultura tropical. A Embrapa, as universidades, os institutos estaduais, as cooperativas e o setor produtivo desenvolveram tecnologias que permitiram produzir em escala em ambiente tropical, com ganhos de produtividade, adaptação de cultivares, manejo de solos, integração produtiva e avanço de práticas de baixo carbono.
Mas o mundo ainda olha muito para o agro com régua europeia ou norte-americana. A pesquisadora Mariana Pereira, chefe da Embrapa Gado de Corte e conselheira da Organização Mundial dos Agricultores, tem defendido justamente isso: há desconhecimento internacional sobre os sistemas produtivos tropicais e sobre a ciência aplicada no campo brasileiro.
Traduzindo: antes de enfrentar tarifa, o Brasil precisa enfrentar percepção. Diplomacia científica é levar dado, pesquisa e evidência para a mesa onde se definem regras globais. É mostrar que agricultura tropical não pode ser julgada apenas por parâmetros de regiões temperadas. É transformar conhecimento em argumento comercial.
Esse debate tende a ganhar ainda mais peso com COP, clima, rastreabilidade, carbono, desmatamento e segurança alimentar. Quem chega com ciência, chega mais forte.
Frango não tem partido
O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, Ricardo Santin, disse uma frase que deveria virar lembrete permanente para Brasília: “Frango não tem partido, nem ideologia, não dá para misturar isso”.
É uma frase simples, mas resume o essencial. O comprador internacional quer regularidade, sanidade, preço, qualidade e confiança. Ele não compra porque gostou do discurso de campanha. Também não deixa de comprar apenas porque mudou o presidente, se o produto continua essencial.
O próximo presidente terá que entregar estabilidade
A pergunta para Lula e Flávio Bolsonaro, portanto, não é apenas quem fala mais bonito para o agro. A pergunta é quem terá capacidade de manter mercados abertos, ampliar destinos, reduzir barreiras, fortalecer defesa agropecuária e preservar a credibilidade internacional do Brasil.
O próximo governo terá que lidar com uma pauta pesada: China e Estados Unidos em disputa, União Europeia mais exigente, Oriente Médio estratégico, Ásia em expansão, fertilizantes vulneráveis, exigências ambientais crescentes e compradores cada vez mais atentos à origem dos produtos.
Não há espaço para improviso. O agro brasileiro é competitivo demais para ser pequeno na diplomacia e é importante demais para virar refém de guerra ideológica. E no agro, quem fecha mercado por ideologia, depois precisa abrir com prejuízo e essa conta, como quase sempre, chega primeiro para quem produz.



