24/10/2026

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História da pipa: de arma de guerra a paixão cultural no Brasil

Presente na infância de diferentes gerações e colorindo os céus das periferias brasileiras, a pipa tem uma trajetória que vai muito além do lazer. Antes de virar símbolo recreativo nos bairros, o objeto desempenhou papéis estratégicos em conflitos armados milenares, foi elemento crucial em descobertas científicas e inspirou os pioneiros da aviação moderna.

Origem nos campos de batalha da China antiga

Os primeiros modelos surgiram por volta de 1200 a.C. na China antiga, estruturados a partir de varetas de bambu e tecidos de seda. Longe de serem vistos como brinquedos, os artefatos funcionavam como maquinário de combate militar. Os primeiros relatos documentados de voo datam de 200 a.C., quando estruturas de grande porte eram erguidas para transportar soldados em missões de espionagem aérea sobre bases rivais.

Além da observação tática, os chineses utilizavam códigos visuais nas alturas: movimentos pré-determinados e cores específicas nas asas serviam para transmitir mensagens secretas entre pelotões afastados. O próprio imperador Wu, governante entre 141 e 87 a.C., recorreu a esse recurso para pedir reforços quando se viu encurralado por forças inimigas na cidade de Nanjing.

Expansão territorial e intimidação na Europa

A tecnologia ganhou novos continentes pelas mãos de comerciantes árabes, que introduziram o artefato na Europa. Embora crianças europeias já empinassem papagaios no século XII, o potencial bélico continuou a ser explorado. No início do século XV, em 1402, o tratado militar alemão Bellifortis, produzido por Konrad Kyeser, registrou a imagem de um combatente empunhando uma pipa em formato de dragão com o objetivo de amedrontar as tropas adversárias.

Da ciência aos céus brasileiros

A chegada ao território brasileiro ocorreu durante o século XVI, trazida pelas embarcações dos colonizadores portugueses. No Rio de Janeiro colonial, o artefato dividia com os sinos das igrejas a função de anunciar notícias e celebrar datas comemorativas, sobretudo nos festivais de Sexta-Feira Santa.

Com o tempo, o equipamento despertou a atenção de pesquisadores e impulsionou setores como meteorologia, fotografia e engenharia civil. Em 1752, Benjamin Franklin utilizou um fio condutor preso a uma estrutura voadora durante uma tempestade para provar a natureza elétrica dos raios, experimento que permitiu a invenção do para-raios. Mais tarde, Santos Dumont utilizou conceitos aerodinâmicos derivados dos papagaios de papel para desenvolver a estrutura do histórico 14-Bis.

A cultura das lajes e a regulamentação dos pipódromos

Nas comunidades e subúrbios brasileiros, a atividade consolidou uma linguagem própria, marcada pela disputa para cortar a linha do concorrente e recolher a armação abatida como troféu. Grupos dedicados floresceram especialmente na Zona Oeste carioca, onde a confecção caseira sempre superou as versões industriais vendidas na orla marítima devido à melhor maleabilidade contra as correntes de vento.

A fabricação artesanal tornou-se uma tradição popular, reunindo folhas finas de papel de seda, talas de bambu, linha 10 e colas preparadas no fogão com farinha e água ou restos de arroz. Contudo, a rivalidade aérea também gerou métodos arriscados, como a inserção de lâminas nas rabiolas e o emprego de cerol — preparado com cola de madeira e vidro triturado nos trilhos de bondes —, prática altamente perigosa que passou a ser proibida no estado fluminense ainda nos anos 1990.

Para assegurar a continuidade da tradição sem colocar a população em perigo, o poder público interveio no cenário esportivo e cultural. Em outubro de 2019, o governo do Estado do Rio de Janeiro sancionou a Lei 8562/19, oficializando a criação de pipódromos: áreas abertas e planejadas para a realização de festivais e o exercício seguro do passatempo por admiradores de todas as idades.