Flávio Bolsonaro une direita e Lula não expande apoios
A corrida para o segundo turno das eleições presidenciais no próximo domingo (25) apresenta cenários contrastantes para as articulações políticas. Enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) conseguiu aglutinar com sucesso as forças da direita e do centro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à reta final sem conseguir estender o arco de alianças que caracterizou a sua campanha vitoriosa em 2022.
Flávio Bolsonaro consolida hegemonia na direita e atrai o centro
Para esta etapa decisiva, a candidatura de Flávio Bolsonaro garantiu o apoio oficial de ex-concorrentes diretos do primeiro turno, como Augusto Cury (Avante), que terminou na terceira colocação, além dos governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). No plano partidário, o parlamentar reuniu legendas como União Brasil, Progressistas, Republicanos, Novo e Podemos.
O avanço sobre forças tradicionais também provocou um racha explícito no MDB: 17 dos 27 diretórios regionais optaram por marchar ao lado do senador do PL, restando a Lula a adesão das outras dez seções estaduais, concentradas nas regiões Norte e Nordeste.
De acordo com Sávio Cavalcante, professor de sociologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o movimento reflete uma estratégia consolidada nos últimos anos: “Flávio conseguiu fazer algo que o bolsonarismo vem fazendo desde 2018, que é hegemonizar o campo das direitas. E neste sentido, vale considerar inclusive o apoio do centro, que se alia a ele por cálculos políticos e eleitorais de sobrevivência e viabilidade”.
A cientista política Mariana Chaise, pesquisadora do CESOP (Centro de Estudos de Opinião Pública), complementa a análise sobre a reconfiguração partidária: “O esvaziamento do centro aconteceu em 2022 porque o PSDB declinou enquanto partido, e também porque elementos que historicamente se vincularam a este campo foram para a direita. É neste contexto que Flávio está organizando parceiros e partidos que já têm em grande medida uma identidade com a agenda dele e, de maneira ampla, com o bolsonarismo. O que aconteceu foi uma atração natural de candidatos que já tinham pautas muito próximas”.
Dificuldade de Lula em ampliar a frente ampla de 2022
Diferente do pleito de quatro anos atrás, a chapa governista não conseguiu agregar novos nomes de correntes divergentes ou rivais históricos. Na eleição anterior, a campanha petista atraiu adesões expressivas fora da esquerda, como a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), do economista e ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, e da então candidata Simone Tebet (MDB), que somou forças junto ao vice Geraldo Alckmin (PSB).
Chaise ressalta que o impacto dessa estratégia diminuiu no atual cenário: “Em 2026, vimos Lula tentar reeditar essa frente ampla — e eu nem digo que ele não conseguiu, porque os atores que estavam em 2022, em parte, também estão agora. É o caso da Tebet. Mas em termos retóricos e simbólicos, a frente hoje não tem o mesmo peso”.
O peso do exercício do mandato
O desgaste natural do exercício do poder no Palácio do Planalto é outro obstáculo enfrentado pela chapa petista. Se em 2022 a aliança com Alckmin servia como um estandarte em defesa das instituições democráticas, o momento atual exige a prestação de contas sobre os resultados da administração federal e a apresentação de projetos concretos para um novo mandato.
Cavalcante aponta que essa limitação na capilaridade partidária pode trazer impactos nas urnas: “Além disso, seria importante para Lula conseguir o apoio de partidos que têm representação no parlamento e nas regiões brasileiras. Isso poderia ser decisivo. Do outro lado, Flávio Bolsonaro conseguiu uma parte importante de siglas do centro para a direita”.



