Banco do Japão mantém taxa de juros e mercado prevê alta em dezembro
A taxa básica de juros do Japão foi mantida em 1,25% ao ano, conforme anúncio oficial divulgado nesta sexta-feira (30). Embora a medida estivesse nos cálculos dos analistas, o tom do comunicado acabou fortalecendo as projeções de que uma nova elevação poderá ocorrer em dezembro, levando a taxa a 1,5%.
O contexto histórico da economia japonesa
A economista Marilia Fontes avaliou a resolução e apontou o cenário do passado que justifica a atual cautela adotada pelo banco central do país. “O BoJ sofreu durante muito tempo com uma necessidade de aumentar estímulos, de aumentar a atividade econômica, com um risco de deflação”, afirmou.
Desde o ano de 2013, o foco das autoridades monetárias tem sido o fortalecimento econômico, impulsionando o consumo e a expansão salarial. Atualmente, os indicadores finalmente refletem esse esforço, com avanço tanto nos salários reais quanto nas despesas das famílias, criando condições para que o BoJ aproxime a taxa do patamar neutro — ponto em que a inflação não sofre aceleração nem desaceleração.
Inflação, iene e reflexos no mercado global
O índice inflacionário japonês chegou a 2,1%, superando levemente a meta de 2%. O foco da nação difere do restante do globo, pois o objetivo é assegurar um patamar razoável para os preços e não conter uma alta descontrolada. Fatores como o período pós-pandemia, o conflito entre Ucrânia e Rússia e o encarecimento do petróleo projetam a convergência total apenas para 2028.
Com a manutenção dos juros, o iene apresentou alta de 0,34%. “O mercado está precificando que o BoJ pode fazer um novo movimento de alta, e isso tende a valorizar o iene“, explicou Marilia Fontes.
Impactos no carry trade mundial
As decisões do Banco do Japão exercem influência direta sobre o cenário internacional. Devido ao longo período de juros baixos ou negativos, a moeda japonesa virou base para o carry trade, estratégia em que investidores captam recursos a baixo custo no país asiático para aplicar em mercados de juros elevados, a exemplo do Brasil. “Os movimentos de juros no Japão acabam influenciando bastante a moeda e, consequentemente, as operações de carry trade em todo o resto do mundo”, afirmou.
Por fim, a especialista reforça que a transição monetária precisa ser gradual para evitar danos à retomada, visto que o fantasma da deflação e da estagnação assombrou o país por mais de duas décadas. “O aumento de juros lá tem que ser feito com muita cautela, porque eles sofreram mais de duas décadas com deflação e atividade fraca”, disse. “Na dúvida, eles sempre vão acabar deixando a inflação escapar um pouquinho para cima e depois tentar controlar”, concluiu Marilia Fontes.



