18/10/2026

1000x250
previous arrow
next arrow

Segundo turno: o que potências globais esperam do Brasil

A eleição presidencial brasileira atrai a atenção direta das principais capitais mundiais, que acompanham a votação sob perspectivas econômicas e geopolíticas bastante distintas. O desfecho das urnas mobiliza interesses estratégicos que vão desde acordos de livre comércio e minerais críticos até a segurança alimentar e alianças de defesa no cenário internacional.

Washington e a busca por um parceiro hemisférico

O governo norte-americano observa o pleito com foco imediato na segurança regional e no acesso a matérias-primas essenciais. O ex-presidente Donald Trump classificou a votação do primeiro turno como “uma grande vitória”, antecipando o interesse da direita norte-americana em um alinhamento político em Brasília.

A proposta de adesão ao chamado “Escudo das Américas” — articulação focada no enfrentamento a facções criminosas como PCC e Comando Vermelho — somada à iniciativa para minerais críticos representam pontos de interesse para os Estados Unidos. Os mercados financeiros reagiram positivamente a essa perspectiva após o primeiro turno: a moeda nacional valorizou 4,7% em relação ao dólar e o principal índice acionário subiu cerca de 14% em termos de moeda estrangeira, com plataformas de previsão indicando ampla vantagem de votos para a oposição. Uma continuidade de governo com Lula, por sua vez, tende a reforçar o multilateralismo e a interlocução com o Sul Global.

A diplomacia silenciosa de Pequim

Maior parceiro comercial do país, a China optou pela cautela e informou apenas que “acompanha com atenção o processo eleitoral”. Com importações que somam cerca de US$ 100 bilhões por ano — concentradas em soja, petróleo, minério de ferro e proteína animal —, o gigante asiático mantém relações que independem de alterações partidárias no Palácio do Planalto.

Contudo, a dinâmica pode sofrer variações conforme as prioridades do novo mandato. A gestão petista oferece historicamente respaldo ao bloco dos Brics e ao debate de uma ordem multipolar, enquanto uma aproximação formal com os EUA exigiria equilíbrio para evitar tensões comerciais, especialmente em setores sensíveis como o mercado de terras raras.

O peso dos insumos agrícolas de Moscou

Pouco debatida nos palanques, a relação com o Kremlin envolve a base de sustentação do agronegócio nacional. A Rússia é responsável por 24,7% das importações brasileiras de adubos químicos, o equivalente a 11,1 milhões de toneladas registradas em 2025.

O abastecimento de fertilizantes — essenciais para um segmento que responde por quase 28% do Produto Interno Bruto — segue indispensável para os dois concorrentes. A diferença reside na sustentação diplomática da compra de insumos sob sanções ocidentais, um tema que demanda justificativas políticas distintas conforme a composição do governo federal.

Exigências de Bruxelas e o calendário eleitoral em Tel Aviv

Na Europa, a prioridade máxima é a conclusão do tratado de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, pendente de ratificação parlamentar. Bruxelas prioriza o cumprimento de critérios ambientais e de combate ao desmatamento, ao mesmo tempo em que o país tenta destravar barreiras técnicas recentes sobre a exportação de carne bovina.

Em Israel, a definição no Brasil repercute diretamente na política doméstica, já que a eleição parlamentar israelense ocorre apenas 48 horas após a votação brasileira. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu busca consolidar apoio externo em meio a uma disputa acirrada nas pesquisas locais, cenário no qual a postura do futuro ocupante do Planalto ditará os rumos do diálogo bilateral no Oriente Médio.

Apesar das expectativas externas, analistas pontuam que os pilares econômicos do Brasil — incluindo o volume de vendas para a Ásia e a demanda por fertilizantes — permanecerão intactos, cabendo ao novo governante gerenciar o grau de proximidade diplomática com cada um desses polos de poder.