10/10/2026

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Jurista Navi Pillay vence o Prêmio Nobel da Paz de 2026

O Comitê Norueguês do Nobel anunciou nesta sexta-feira, em Oslo, a concessão do Prêmio Nobel da Paz de 2026 à jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay, de 85 anos. A notícia alcançou a homenageada enquanto ela visitava Nuremberg, cidade alemã historicamente ligada ao nascimento do direito internacional humanitário moderno. Ao comentar a escolha com ironia, Pillay afirmou: “Se vocês aplaudirem um pouco mais, talvez eu divida este prêmio com Trump.”

Da resistência ao apartheid aos tribunais globais

Nascida em 1941 na cidade de Durban, em uma família de raízes tâmeis indianas, Pillay construiu sua trajetória enfrentando as barreiras do apartheid. Como advogada, defendeu militantes contrários à segregação racial e garantiu o direito de Nelson Mandela a suporte jurídico durante o período em que ele esteve detido. Anos depois, o próprio Mandela a indicou para a Suprema Corte da África do Sul, marcando a chegada da primeira mulher não branca ao principal tribunal do país.

A partir de 1995, Pillay expandiu sua carreira para as cortes multilaterais. Ela presidiu o Tribunal Penal Internacional para Ruanda, instaurado pelas Nações Unidas para punir os responsáveis pelo massacre de centenas de milhares de tutsis em 1994. Nesse órgão, foi pioneira na consolidação de jurisprudências históricas, como o enquadramento do estupro sistemático em conflitos bélicos como crime contra a humanidade. Mais tarde, entre 2008 e 2014, chefiou o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

A investigação sobre Gaza e as controvérsias internacionais

Em 2025, Pillay esteve à frente da Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o Território Palestino Ocupado, órgão vinculado à ONU cujo documento de 72 páginas apontou a ocorrência de genocídio na Faixa de Gaza pelas forças militares israelenses. O parecer técnico aplicou parâmetros definidos pela Convenção de 1948 para avaliar padrões de ataque, declarações de autoridades e a devastação de estruturas civis.

As conclusões geraram forte reação do governo israelense, que classificou o relatório de “escandaloso” e “libelo genocida.” Na mesma linha, a embaixadora Ilanit Cotler-Wunsh apontou a escolha da laureada como um “colapso de instituições e princípios”. Diante das tensões, a organização em Oslo ressaltou que “não está tomando posição sobre se Israel cometeu genocídio em Gaza ao homenagear Pillay.”

Defesa do multilateralismo e impactos políticos

O presidente do comitê, Jørgen Watne Frydnes, destacou que a condecoração representa “uma mensagem àqueles que estão atacando e enfraquecendo o sistema internacional.” A manifestação reflete um contraponto direto a posturas unilateralistas que desacreditam a ONU, o Tribunal Penal Internacional e os pactos de governança global.

A repercussão da honraria reverbera também no cenário político do Brasil. O posicionamento histórico de Pillay converge com as manifestações diplomáticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que utilizou termos semelhantes aos do inquérito para criticar as ações militares na região e levou o debate às cortes internacionais. Assim, a premiação em Oslo reforça o protagonismo das cortes judiciais globais em meio às polarizações geopolíticas contemporâneas.