22/10/2026

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Brasil pode ter déficit de 235 mil professores até 2040

O sistema educacional brasileiro caminha para um cenário alarmante: um déficit de até 235 mil professores na educação básica até o ano de 2040, segundo estimativa do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior de SP (Semesp). O fenômeno, chamado de “apagão de professores”, resulta de uma combinação de evasão precoce da sala de aula, perda de interesse dos jovens pelo magistério e defasagem na remuneração da categoria.

Abandono da carreira e perfil da docência no país

Dados do relatório Panorama da Educação, elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), revelam que 10,3% dos professores qualificados dos ensinos fundamental e médio deixaram os postos em 2022 por aposentadoria ou exoneração. O índice supera com folga a média da OCDE, de 6,4% no biênio 2024/2025.

Para compreender esse fluxo, especialistas apontam particularidades da categoria no Brasil. “O Brasil tem uma força de trabalho majoritariamente mais velha. As licenciaturas tendem a atrair pessoas mais velhas, que não saíram imediatamente do ensino médio e foram para o ensino superior, ou que estão em transição de carreira, que optaram por seguir uma carreira de licenciatura depois de ter tentado em outras etapas”, explica Bárbara Born, gerente de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação.

Ainda assim, as estatísticas de saída geram apreensão. “É preciso considerar, porém, que o indicador reúne diferentes motivos de saída, como aposentadorias, pedidos de demissão e mudanças de função, e não significa necessariamente o abandono definitivo da docência”, reforça Maria Slemenson, superintendente do Instituto Natura Brasil.

Por outro lado, Gisele Pinheiro, diretora do Singularidades e especialista em formação docente, salienta a gravidade da perda de profissionais: “Quando levamos em consideração quem desistiu dessa carreira, que não foi um ciclo natural de aposentadoria, nós ainda temos um cenário de que o Brasil fica ainda posicionado de uma maneira muito relevante, ainda é o quarto colocado dentro desse ranking de maior desistência da carreira profissional, que ele nos coloca como um alerta, principalmente quando levamos em consideração que essa reposição”.

Desempenho dos ingressantes e qualidade na formação

A perda de atratividade da profissão começa antes da entrada no mercado. O Anuário Brasileiro de Educação Básica 2026 constatou uma queda expressiva de alunos de alto rendimento nos cursos de Licenciatura: em 2020, 22,7% dos calouros estavam entre as 20% maiores notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem); em 2023, o número caiu para 14% e registrou 14,7% em 2024.

O preparo acadêmico também reflete deficiências. No Enade de 2025, apenas 20,2% dos concluintes de licenciaturas demonstraram aprendizado adequado, enquanto 42,2% ficaram abaixo do nível básico. Na modalidade de ensino a distância (EaD), o resultado negativo atingiu 53,1%, ante 26,1% nas graduações presenciais.

“Há todo um trabalho que deve ser feito no fomento à carreira docente e à própria permanência de quem escolhe essa carreira, para que a gente não possa ter impactos na aprendizagem”, considera Pinheiro. E esse cuidado deve vir também do professor. “Já que eles estão envolvidos com algo que é de altíssima responsabilidade, que é formar outros, cuidar da educação de crianças e de jovens”, pondera.

Salários defasados e condições de trabalho desfavoráveis

A insatisfação com a remuneração é um dos grandes entraves para reter talentos. Conforme a OCDE, somente 22,3% dos professores brasileiros se dizem satisfeitos com seus vencimentos, frente à média global de 38,7%. O contentamento com as condições de trabalho também é reduzido: 44,3% no Brasil contra 68,4% no restante do mundo.

A sociedade apoia mudanças: o levantamento “O que a população pensa sobre a educação – 2026”, executado pelo Instituto Ideia, apontou que 53% dos brasileiros consideram o reajuste salarial dos docentes a prioridade máxima para a gestão pública.

“Para reverter esse cenário, é preciso tratar a valorização dos professores como uma prioridade das políticas educacionais. Isso significa combinar remuneração adequada, planos de carreira atrativos e melhores condições de trabalho nas escolas”, explica Maria Slemenson. Ela complementa: “Valorizar os professores é também uma condição essencial para melhorar a aprendizagem e enfrentar as desigualdades educacionais no Brasil”.

Bárbara Born detalha a instabilidade financeira enfrentada no setor: “Hoje, o salário do professor em média corresponde a 84% do salário de pessoas com ensino superior. Além disso, é importante lembrar que, em muitas redes, a composição salarial dos professores é feita de uma série de bonificações e aditivos que não são salário efetivamente, né? Então, acho que isso gera também uma insegurança dos professores com relação aos seus ganhos e uma potencial insatisfação”. A flutuação de carga horária agrava o problema: “O que significa que você não consegue se projetar financeiramente para os anos que vêm”.

Soma-se a isso a rotina escolar desgastante. Conforme apuração do Instituto Datafolha com estudantes da rede pública, o desrespeito e o tumulto em sala estão entre as principais queixas diárias. Bárbara lembra que a questão vai além da dispersão: “Muitas vezes está ligada a comportamentos violentos e agressivos, não só entre os estudantes, mas contra os professores”.

Propostas para conter o apagão docente

Superar a crise exige medidas conjuntas em diferentes frentes. “As frentes que a OCDE destaca são carreira e remuneração atrativas, formação inicial conectada à prática, acompanhamento no início da carreira, apoio em sala e menos burocracia”, resume Slemenson. A especialista defende o fim do desdobramento de jornadas em múltiplos colégios: “Atuar em uma única escola, sobretudo em tempo integral, favorece a relação de confiança com os estudantes, a integração com a equipe pedagógica e a participação na vida escolar, além de criar melhores condições para o planejamento e a colaboração entre professores”.

O acolhimento ao recém-formado é outro ponto indispensável. “Uma vez que ele se formou professor, ele está nas escolas com todo esse cenário de diversidade, que ele também possa ter acompanhamento, suporte e esse compromisso com a formação continuada dele, que é cíclico, e esse monitoramento, esse apoio, fará a diferença para nosso cenário brasileiro”, descreve Pinheiro.

Por fim, a reestruturação passa pelo foco na qualidade dos cursos e na recuperação do prestígio da função. “80% dos professores de pedagogia estão sendo formados em cursos de educação à distância, que são cursos que têm problemas intrínsecos muito sérios, de qualidade, de oferta de saberes minimamente relevantes para a formação desses indivíduos”, avalia Bárbara Born. Para ela, transformar a realidade de quem já atua é o primeiro passo para inspirar novas gerações: “A gente precisa transformar como esse professor está dentro da sala de aula, melhorar as condições de atuação do professor que está hoje na sala de aula, para que os jovens olhem para eles e queiram ser como eles. Nenhum jovem que está vendo o seu professor adoecido, insatisfeito ou deprimido vai querer ser como ele”.