Ataques no Mar Negro ameaçam frete e fertilizantes no Brasil
Uma sequência de investidas com drones contra embarcações civis no Mar Negro acendeu o sinal de alerta no comércio marítimo internacional e já projeta reflexos sobre a agricultura brasileira. Ao longo de outubro, pelo menos sete embarcações mercantes foram atingidas nas proximidades de Romênia e Bulgária, nações que integram a Otan. Os episódios deixaram ao menos dois mortos e dezenas de tripulantes desaparecidos, sem que nenhuma autoria tenha sido formalmente comprovada.
Escalada de ataques atinge rotas alternativas de escoamento
Os incidentes começaram em 5 de outubro, quando um cargueiro de propriedade turca carregado com milho do terminal ucraniano de Izmail rumo à Itália pegou fogo e afundou próximo ao litoral romeno, provocando duas mortes. No dia seguinte, dois navios mercantes sofreram impactos na zona econômica exclusiva búlgara, com o naufrágio de um deles.
A violência no mar continuou no dia 13 de outubro, quando outra embarcação foi a pique perto da costa da Bulgária, deixando 11 marinheiros desaparecidos. Já na madrugada do dia 15, dois navios-tanque sofreram incêndios em águas territoriais da Romênia, nos arredores da foz do canal de Sulina, com ao menos sete tripulantes ainda sem paradeiro conhecido.
Após bombardeios russos aos portos de Odesa terem forçado a Ucrânia a escoar sua produção pelo rio Danúbio e pela margem romena, essa hidrovia alternativa também se tornou insegura. Romênia e Bulgária apontam preocupação com a segurança regional: enquanto o primeiro-ministro búlgaro, Rumen Radev, considerou Moscou a provável responsável diante da falta de sentido de Kiev sabotar suas próprias cargas, o presidente romeno, Nicusor Dan, confirmou que dois drones atingiram os navios e prometeu uma reação do Estado romeno, embora sem apontar culpados diretos.
O impasse militar da Otan e a segurança no mar
Os episódios colocam à prova os limites do Artigo 5 da Otan, dispositivo de defesa mútua da aliança. Como os navios utilizam bandeiras de conveniência e pertencem a operadores privados turcos ou ucranianos, eles não configuram território ou contingente de um país-membro. Trata-se de uma tática que desestabiliza a região sem cruzar a linha formal de um confronto direto.
Por ora, a resposta dos aliados ocidentais concentra-se na contenção de danos. Em 15 de outubro, o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, esteve reunido com Radev e Dan para avaliar o reforço de sistemas antidrone. Paralelamente, o governo búlgaro planeja ingressar no Drone Edge, iniciativa apresentada em julho que projeta investimentos de mais de US$ 40 bilhões em cinco anos, enquanto a União Europeia debate uma moratória sobre ofensivas a navios civis.
Reflexos diretos para o agronegócio e o produtor brasileiro
O Mar Negro funciona como um dos principais corredores alimentares do mundo, concentrando o escoamento de cerca de 90% dos grãos e óleos vegetais ucranianos, 70% dos grãos da Rússia e aproximadamente um terço das exportações globais de trigo. A instabilidade elevou as cotações do milho e do trigo no mercado europeu e encareceu os contratos de seguro marítimo contra risco de guerra, que já haviam saltado de 1% para até 2% do valor dos cascos em agosto.
Dependência de fertilizantes e custo da safra
O maior ponto de vulnerabilidade para o Brasil reside no abastecimento de insumos agrícolas. Mais de 85% dos fertilizantes utilizados nas lavouras nacionais são importados, tendo a Rússia como principal parceira comercial, respondendo por uma fatia entre 20% e mais de 25% do total. De janeiro a julho de 2026, as importações brasileiras de adubo somaram 22,4 milhões de toneladas — um recuo de 7,4% na comparação com igual período de 2025, acompanhado de custos mais elevados.
Embora as ações recentes tenham mirado navios vinculados ao fluxo comercial da Ucrânia, qualquer eventual contágio que atinja terminais ou cargueiros russos resultará em repasse imediato nos preços do frete internacional e do seguro. O Plano Nacional de Fertilizantes, instituído em março de 2022 para baixar a dependência externa de 85% para 45% até 2050, ainda mantém o país atrelado a um índice de 85% a 90% de compras estrangeiras no momento em que a semeadura da soja 2026/27 avança pelo território nacional.



