02/11/2026

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Mercado ajusta apostas para o Copom e prevê fim no corte de juros

O cenário projetado pelo mercado financeiro para a taxa básica de juros da economia brasileira passou por uma reviravolta expressiva nas últimas semanas, impulsionado pelo desfecho do segundo turno das eleições presidenciais e por pressões inflacionárias tanto no âmbito doméstico quanto no internacional.

Impacto eleitoral na taxa básica Enquanto a aposta majoritária anterior apontava para uma redução de 0,25 ponto percentual na Selic, analistas, bancos e corretoras agora direcionam suas projeções para a manutenção da taxa em 13,75% ao ano.

O principal termômetro dessa mudança são os contratos negociados na B3, que registraram uma probabilidade implícita de 68,8% para a estabilização dos juros, invertendo o patamar superior a 70% de chance de corte que vigorava antes do pleito.

Visão dos grandes bancos Instituições financeiras revisaram profundamente suas estimativas para os próximos anos. O Itaú Unibanco aponta que o Banco Central deve comunicar uma interrupção no ciclo de flexibilização monetária diante da desancoragem das expectativas de inflação.

“Esperamos que o Copom comunique uma interrupção do ciclo de cortes de juros com manutenção da taxa Selic em 13,75%, em decisão unânime. O comitê deve notar que o contexto global adverso, a desancoragem adicional das expectativas de inflação e os riscos elevados em torno do cenário base exigem cautela e perseverança no cumprimento de seu mandato”, conclui o Itaú Unibanco.

No mesmo sentido, o HSBC projeta que a Selic permaneça estagnada até março de 2027, destacando que a situação fiscal do país será determinante.

“É improvável que surjam medidas claras para conter os gastos públicos antes das reuniões do Copom de novembro e dezembro. Enquanto isso, os riscos de inflação aumentaram, com preços mais altos de energia e alimentos, custos crescentes dos subsídios aos combustíveis e o possível impacto de uma semana de trabalho mais curta”, aponta o HSBC em relatório.

A entidade alerta ainda sobre os riscos estruturais: “O principal risco é que as expectativas de inflação se desancorem. Com as taxas de inflação de equilíbrio já subindo acentuadamente e a incerteza fiscal permanecendo elevada, os participantes do mercado podem questionar o compromisso do BC com a meta de inflação”, aponta.

Fatores geopolíticos externos Além das dúvidas em relação à condução fiscal do governo, o cenário internacional se deteriorou. O Itaú BBA classifica o ambiente externo atual como “adverso”, impulsionado pelos conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio.

“A guerra no Oriente Médio dá sinais de que pode ser mais duradoura e, mesmo com aumento significativo das exportações de petróleo da região, os maiores custos de frete, seguros e um prêmio de risco elevado trouxeram as cotações da commodity para perto dos níveis observados no início do conflito”, diz o relatório.

Análise dos economistas-chefe Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, reforça a necessidade de uma postura rígida por parte da autoridade monetária frente aos dados recentes da economia.

“Considerando as sensibilidades dos modelos do Banco Central, acreditamos que as projeções de inflação para o horizonte relevante devem subir e ficar acima da meta. A desancoragem das expectativas, a assimetria altista do balanço de riscos, a inflação pressionada e a maior volatilidade dos preços de ativos também recomendam cautela”, afirma Salles.

“Nesse contexto, o Copom deve reforçar a necessidade de perseverar com uma política monetária contracionista até que se consolide não apenas o processo de desinflação, mas também a reancoragem das expectativas”, completa.

Por outro lado, o Banco Inter mantém a projeção de uma última redução de 0,25 ponto percentual antes de uma pausa definitiva.

“Apesar da maior incerteza e aumento do prêmio de risco na curva de juros futuros, a taxa Selic em 13,50% permanece restritiva o suficiente para amortecer os choques inflacionários esperados para o começo de 2027, considerando o horizonte da política monetária o 2º trimestre de 2028, mas não vemos espaço para a continuidade dos cortes nesse momento”, analisa a economista-chefe Rafaela Vitória.

O Inter acrescenta que a retomada de novos cortes dependerá de ajustes estruturais: “Estimamos que a retomada dos cortes aconteça somente no final de 2027, condicionada à implementação de medidas fiscais que impactam não somente o resultado primário de 2027, mas também com medidas estruturantes de controle da expansão dos gastos nos anos seguintes”, pondera.

No Daycoval, o economista-chefe Rafael Cardoso avalia que eventual corte residual teria impacto limitado, sendo o tom do comunicado o fator determinante para o mercado.

“A atividade vem desacelerando. O BC já teve uma comunicação que ia nessa direção, revisou projeções para baixo no relatório de política monetária, e os 0,25 pontos percentuais na prática não tem uma alteração relevante. É muito mais em termos de sinalização, de continuidade, de não gerar ruído”, diz.

“Um corte bem justificado, com uma sinalização conservadora para o futuro, pode ser um sinal bem aceito pelo mercado. Um corte com uma comunicação que não externalize preocupações adicionais pode ser encarado de uma forma um pouco mais preocupante na ótica do mercado”, complementa Cardoso.

A decisão oficial do Copom será divulgada nesta quarta-feira, consolidando os rumos da política monetária brasileira em meio ao ambiente de instabilidade fiscal e externa.