Especialista descarta impacto do voto envergonhado nas eleições brasileiras
O chamado voto envergonhado não tem força suficiente para provocar mudanças expressivas nos resultados das urnas no pleito deste ano, segundo avaliação de Marcelo Tokarski, CEO da Nexus. O fenômeno, debatido no cenário político brasileiro desde 2018, carece de volume para gerar discrepâncias profundas entre os levantamentos estatísticos e o desfecho oficial da votação. Panorama das pesquisas eleitorais Durante toda a campanha, as pesquisas de intenção de voto mantiveram uma margem de pelo menos um ponto percentual de distância entre os principais concorrentes ao cargo. O especialista pontuou que o levantamento conduzido pela própria instituição registrou números de 47% a 46% nos votos totais, patamar equivalente ao divulgado pelo Datafolha. Na projeção para votos válidos, o cenário indica uma proporção arredondada de 51% a 49%, evidenciando um leve favoritismo para Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na maioria dos institutos de opinião pública. Economia e rejeição governamental O comportamento do eleitorado foi fortemente influenciado por variáveis ligadas à economia e à avaliação da gestão federal vigente. Apesar de medidas populares implementadas nos momentos derradeiros da campanha — a exemplo do fim da jornada 6×1 —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alcançou o período pré-eleitoral com índices de rejeição superando sua aprovação em aproximadamente três pontos percentuais. “Isso, de alguma maneira, serviu de teto para o crescimento dele nessa reta final”, disse Tokarski. O analista destacou que o desejo de transformação social manifestado por parte expressiva da população limitou a expansão da vantagem do petista na corrida eleitoral. Desempenho na baixa renda Outro ponto nevrálgico apontado pelo CEO da Nexus foi o comportamento do eleitorado com renda familiar situada entre um e dois salários mínimos. Nesta faixa demográfica, onde o volume de beneficiários do programa Bolsa Família é menor, o candidato do PT manteve superioridade numérica sobre o adversário, porém registrou marcas inferiores ao seu retrospecto histórico em disputas anteriores. “Esse eleitor é justamente aquele em maior dificuldade financeira, que está endividado, que não está conseguindo chegar no fim do mês com dinheiro no bolso”, explicou. Apesar de uma recuperação parcial observada nas últimas três semanas, o índice não foi suficiente para recompor a base tradicional de apoio nesse segmento populacional. Análise sobre o voto envergonhado Questionado sobre a relevância do voto oculto, Tokarski ponderou que a discussão ganhou força no país a partir de 2018, associada à suposta ocultação de preferências pela direita que escaparia aos radares estatísticos. No entanto, o especialista manifestou ceticismo em relação a essa teoria no contexto atual. “No nosso caso aqui da Nexus, nós fazemos pesquisas telefônicas, onde não faz muito sentido alguém ter vergonha de admitir em quem vai votar”, argumentou. Adicionalmente, ele avaliou que o desgaste de imagem atribuído a ambos os concorrentes poderia pulverizar o fenômeno em direções opostas. “Eu não acredito que esse fenômeno do voto envergonhado seja suficiente para alterar o resultado de pesquisa em relação à urna”, concluiu. Impacto de abstenções e clima Para a reta decisiva, o executivo apontou a taxa de abstenção — que atingiu 21% no primeiro turno — como a principal variável capaz de alterar o panorama de última hora. Outro elemento monitorado de perto envolve a previsão meteorológica de chuvas intensas decorrentes de um ciclone extratropical nas regiões Sul e Sudeste, redutos eleitorais onde Flávio Bolsonaro concentra maior votação. “Na minha visão, hoje esse é o único fator que pode movimentar isso até amanhã e acabar trazendo um resultado que hoje não está sendo mostrado pelas pesquisas de intenção de voto”, afirmou.



