Novaya Gazeta encerra operações na Rússia após pressão estatal
A Novaya Gazeta, amplamente reconhecida como um dos últimos redutos da imprensa livre na Rússia, anunciou na sexta-feira (30) o fim definitivo de suas atividades. O encerramento ocorre após uma longa escalada de restrições e forte pressão exercida pelas autoridades estatais contra a redação.
O fim de uma trajetória histórica
Em um vídeo divulgado para anunciar a medida, o editor-chefe Sergei Sokolov declarou: “A Novaya Gazeta foi assassinada”. Ele complementou: “No dia 9 de novembro, apagaremos as luzes da casa onde vivemos por 30 anos. Desligaremos nossos servidores e iremos embora… Os serviços de segurança russos forçaram a equipe editorial a cessar as operações.”
Fundada no início dos anos 1990 com o apoio parcial do ex-líder soviético Mikhail Gorbachev, a publicação construiu uma trajetória marcada por investigações contundentes sobre corrupção e desvios de conduta do Estado russo. O jornal era tradicionalmente associado ao jornalista Dmitry Muratov, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2021 ao lado da filipina Maria Ressa pelos “esforços para salvaguardar a liberdade de expressão.”
Repressão e perseguição a jornalistas
O cenário para a imprensa independente deteriorou-se drasticamente após a invasão em larga escala da Ucrânia. Em março de 2022, o parlamento russo criminalizou a divulgação de informações consideradas “falsas” sobre as forças armadas, provocando o êxodo de dezenas de profissionais. Uma ramificação, a Novaya Gazeta Europe, passou a operar a partir de Riga, na Letônia.
Ao longo de seus 30 anos e meio de história, seis profissionais do veículo foram assassinados, incluindo Anna Politkovskaya, renomada crítica do presidente Vladimir Putin que investigou abusos de direitos humanos na Chechênia e foi morta em 2006. Além disso, tanto o jornal quanto Muratov receberam o estigma de “agentes estrangeiros”, e o próprio Muratov foi alvo de um ataque com tinta vermelha e acetona em 2022.
O apagão informativo
Sokolov destacou que o fechamento do veículo simboliza a derrocada de toda a estrutura informativa do país. “O espaço informativo na Rússia desapareceu”, afirmou. “As pessoas não sabem, e não têm como descobrir, nem mesmo o que está acontecendo na rua ao lado, porque as fontes de notícias disponíveis para elas são ou histórias sobre uma Rússia que não existe ou propaganda que promove a forma de pensar que a elite dominante quer impor ao público.”
Com a revogação de licenças, o bloqueio de plataformas de doação e de seu site, além da prisão de integrantes da equipe como o jornalista Oleg Roldugin, o veículo viu-se sem alternativas. Em nota oficial, a redação resumiu a situação: “Continuamos trabalhando o máximo que pudemos, mas fomos despejados de nossa sede e nossa plataforma de doações, que nos permitia receber apoio financeiro de nossos leitores, foi encerrada. Fomos privados de todos os nossos recursos. Completamente.”



