21/10/2026

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‘Muito medo do resultado’: o que significa receber um Bi-Rads 4 na investigação do câncer de mama

Jéssica Signani, de 39 anos, descobriu um câncer de mama em estágio inicial após identificar um nódulo em um exame de rotina, em 2023Foto: Arquivo Pessoal/ND Mais

Antes de uma mulher receber o diagnóstico de câncer de mama, ela percorre um caminho tenso e que pode se tornar angustiante. Nos exames preventivos, como a mamografia e o ultrassom, os resultados podem ser classificados em uma escala de zero a 6. O chamado Bi-Rads (Breast Imaging Reporting and Data System ou, em tradução livre, “Sistema de Relatórios e Dados de Imagem da Mama”) é um código internacional que padroniza laudos.

Se uma mulher recebe um resultado como Bi-Rads 3, isso indica que foi identificado um achado que precisa de acompanhamento, em média a cada seis meses. Se o laudo traz o resultado como Bi-Rads 4 ou 5, significa que obrigatoriamente essa paciente precisa realizar uma biópsia.

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A influenciadora Dani Oliveira comoveu a internet ao publicar um vídeo contando como foi receber o diagnóstico de Bi-Rads 4 durante exames pré-operatórios para a cirurgia de redução de mamas. Em entrevista ao ND Mais, Dani contou como foi viver esse período entre o primeiro resultado até o retorno da biópsia.

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Dani, 42 anos, realizava exames de mamografia e ultrassom anualmente. Ambos sempre tinham como resultado o Bi-Rads 2, escala que indica um achado benigno sem risco para malignidade.

A influenciadora Dani Oliveira recebeu um resultado Bi-Rads 4 durante exames pré-operatórios para uma cirurgia de redução das mamas. Após 20 dias de angústia e espera, a biópsia descartou o câncer de mamaFoto: Karina Rocha/Arquivo Pessoal/ND Mais

Com os exames recentes, foi diferente. Ela foi surpreendida por um nódulo classificado, inicialmente, como Bi-Rads 3. Por precaução, o ginecologista a encaminhou para um mastologista para avaliar o caso. Foi quando este solicitou a ressonância magnética que apontou o nódulo como Bi-Rads 4.

“A primeira coisa que passa na cabeça é muito medo do resultado”, recorda.

A angústia da espera

Ao longo de 20 dias, entre a indicação da biópsia e o recebimento do resultado negativo para câncer, Dani ainda precisou lidar com o medo e com um sentimento de angústia, que impactou sua qualidade de vida, sua saúde mental e até o sono.

“Naquela espera para realizar o exame já começa toda uma angústia. Eu estava com muita fé e vendo Deus em cada detalhe. Mas também fiquei com muito medo”, confessa.

A influenciadora optou por dividir primeiro só com o marido, a família e duas amigas próximas. Mas quando veio o resultado, Dani decidiu compartilhar seu relato para que mais mulheres pudessem ter conhecimento sobre esse período de incerteza.

Ela relata que, enquanto aguardava o resultado, percebeu que há muitas informações sobre a prevenção e o tratamento do câncer de mama, mas poucos conteúdos sobre o que significa cada resultado do Bi-Rads.

“Acho super importante falar sobre a angústia e sobre cada exame que a gente precisa fazer nesse período para que essa espera seja o menos traumatizante possível”, avalia.

Dani conta que, para viver essa fase, em que sentimentos de medo se misturam à vulnerabilidade causada pelo desconhecido, a fé foi seu principal alicerce.

“Espero que com o meu relato eu consiga acolher outras mulheres que se identificam com o que passei. Que possam ver que Deus não nos abandona. Ele vai estar o tempo todo com a gente e precisamos ver Ele nos detalhes”, afirma.

‘O diagnóstico salva vidas, e eu sou prova disso’

A coordenadora de Projetos Educacionais, Jéssica Signani, 39 anos, também costumava realizar exames periodicamente. Ela reflete que o fato de a mãe ter tido câncer de intestino a motivou a ter um olhar mais cuidadoso para a saúde.

Foi assim que descobriu em um exame de rotina, em 2023, um nódulo na mama esquerda. No primeiro exame, não foi identificado risco de malignidade. O nódulo era pequeno e não era palpável no exame físico. A recomendação inicial foi repetir o ultrassom em seis meses.

Mas três meses após o achado, Jéssica precisou ir ao médico novamente e decidiram antecipar os exames.

O período foi suficiente para que o nódulo aumentasse de tamanho e passasse a apresentar outras características que o tornavam suspeito de câncer de mama. Jéssica passou por uma biópsia que confirmou a suspeita: carcinoma mamário triplo negativo.

“É como se tivesse o chão aberto. Eu fiquei muito assustada”, lembra.

A tranquilidade sobre o prognóstico chegou somente com o início do tratamento e depois dos exames mostrarem que o câncer estava em fase inicial. Esse processo levou aproximadamente mais três meses.

Em uma investigação genética, Jéssica descobriu que tinha um risco alto para desenvolver câncer na mama e no ovário. Apesar de já ter passado por uma cirurgia conservadora com a retirada apenas do nódulo e ter sido submetida a 16 sessões de quimioterapia, ela optou por uma mastectomia, com remoção total das mamas direita e esquerda, e também a retirada dos ovários.

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    Após o diagnóstico de câncer de mama triplo negativo, Jéssica passou por quimioterapia, cirurgia conservadora e, posteriormente, optou pela retirada das duas mamas e dos ovários após descobrir um alto risco para desenvolver câncer nesses órgãos – Arquivo Pessoal/ND Mais
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Para Jéssica, o apoio do marido, da filha, da família e dos amigos foi fundamental para que ela se sentisse forte ao longo do tratamento.

“A gente vê uma sociedade em que, na maior parte das vezes, a mulher é abandonada. Quando ela tem uma doença que precisa de cuidados ou grave como essa. Meu marido não faltou em nenhum procedimento, nenhuma sessão de quimioterapia. Acho que isso foi crucial, inclusive, foi parte do processo para que eu pudesse me restabelecer o quanto antes”, pondera.

Para outras mulheres, Jéssica diz que gostaria que todas pudessem se cuidar, fazer os exames de rotina e ter consciência do quanto isso é importante. Ela pontua que, por exemplo, o autoexame não teria sido suficiente para ajudá-la, pois seu nódulo não era palpável.

“O diagnóstico salva-vidas, e eu sou prova disso. Tive um câncer na mama e, pela característica dele, se eu não tivesse detectado cedo, meu destino teria sido diferente”, avalia.

Bi-Rads 4 não é câncer, mas exige investigação

Fernanda Perez Magnani Leite, médica mastologista e oncologista do A.C. Camargo Câncer Center, explica que o Bi-Rads 4 é uma linguagem universal e permite que uma paciente brasileira com um laudo em português consiga ser atendida em qualquer lugar do mundo.

“O Bi-Rads 4 não é diagnóstico de câncer. O que ele significa é que existe uma alteração na qual o médico da radiologia achou que é uma imagem importante, uma imagem suspeita”, ressalta.

Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais

A médica reforça que 70% das mulheres que recebem um Bi-Rads 4 não têm câncer. Mesmo quando a mamografia e o ultrassom são realizados no mesmo período, os exames podem apresentar classificações diferentes sem que um esteja errado.

A especialista relata que ouve muitas vezes no consultório esse questionamento e que ter notas diferentes em exames realizados no mesmo momento costuma gerar dúvida para as pacientes. Ela esclarece, porém, que, como são métodos diferentes, cada qual com sua capacidade de avaliação de lesões, é comum que as classificações sejam divergentes.

Outra dúvida recorrente é sobre as classificações do Bi-Rads, que em alguns laudos podem vir como “4A, 4B ou 4C”. Essa subclassificação indica qual o nível de suspeita que o médico que realizou o exame tem sobre o achado. Isso porque o Bi-Rads 4 abrange uma faixa de probabilidade de malignidade que vai de 2% a 95%.

“Bi-Rads 4 é igual a biópsia, independentemente se ele é A, B ou C”, salienta a médica.

Foto: Imagem gerada por IA/ND Mais

Ao receber um resultado de Bi-Rads 4, a especialista aconselha que a paciente busque orientação médica e realize os exames indicados o mais breve possível. Considerando o tempo para o agendamento do exame e o resultado da biópsia, em média, podem se passar 30 dias.

Resultado da biópsia define os próximos passos

Fernanda concorda que, muitas vezes, é mais difícil para a mulher receber o resultado do Bi-Rads 4 e viver o período de indefinição até o resultado da biópsia do que receber, de fato, o diagnóstico de câncer.

“É claro que receber o resultado de que é câncer é muito difícil e abre o chão da pessoa. Definitivamente é muito triste. Mas tem tratamento e tem o que fazer para tudo. No entanto, esse momento da espera do Bi-Rads 4 é angustiante. Eu acho que essa é a palavra que define bem esse momento quando você recebe o Bi-Rads 4: a angústia da definição”, avalia.

Para viver esse processo, a mastologista indica que a mulher busque conhecimento sobre o tema e converse com seu médico. Para Fernanda, o médico que recebe essa paciente também tem um papel fundamental, orientando, ouvindo e mostrando o que vem pela frente.

“A gente precisa da conscientização dos profissionais da saúde para acolher essa mulher, entender que esse é um momento de angústia, estar junto dela e explicar”, enfatiza a mastologista.

A mastologista e oncologista Fernanda Perez Magnani Leite destaca que cerca de 70% das mulheres com resultado Bi-Rads 4 não têm câncer de mamaFoto: Divulgação/ND Mais

Após a biópsia, há três cenários possíveis. O primeiro ocorre quando o resultado é benigno e a paciente precisará retornar em seis meses com novos exames de mamografia e ultrassom. O segundo resultado possível é a identificação, pela biópsia, de lesões atípicas que requerem que o médico avalie se foi realizada a retirada total do nódulo. Em caso positivo, a paciente também retorna em seis meses.

“Independente se a mama formou uma lesão benigna, essa mama está me contando uma história, ela está me dizendo que sabe produzir coisas. Então eu tenho que entender a estabilidade desta mama dentro de seis meses. E aí este resultado é que vai definir a minha conduta para a frente com essa paciente”, pontua Fernanda.

Já no terceiro cenário, o resultado mostra que, de fato, há câncer e essa paciente passará por novos exames, incluindo a imunohistoquímica que auxilia na avaliação do subtipo de câncer para que os médicos possam definir o tratamento.

O mais importante, reforçam as entrevistadas, é que o câncer de mama tem cura. Para Jéssica, que venceu essa batalha, o principal aprendizado que fica é o valor de ter descoberto a doença ainda na fase inicial.

“A gente poder se cuidar, fazer os nossos exames preventivos não é perda de tempo, é investimento. Eu acho que é melhor cuidarmos de nós mesmas na saúde do que na doença”, conclui Jéssica.

Bi-Rads 4 e biópsia: perguntas e respostas sobre a investigação do câncer de mama

O que significa receber um resultado Bi-Rads 4?

O Bi-Rads 4 indica que foi identificada uma alteração na mama com características suspeitas, que precisa ser investigada por meio de uma biópsia. A classificação não confirma o câncer, mas sinaliza a necessidade de analisar uma amostra do tecido para esclarecer o diagnóstico.

Receber um resultado Bi-Rads 4 significa ter câncer de mama?

Não. A biópsia é necessária justamente para diferenciar as alterações benignas das malignas e definir a conduta adequada.

Por que a mamografia, o ultrassom e a ressonância podem apresentar classificações Bi-Rads diferentes?

Cada exame tem características próprias e identifica alterações diferentes. Na mamografia, podem chamar a atenção microcalcificações agrupadas e de formatos irregulares, assimetrias e distorções. No ultrassom, são avaliados nódulos com bordas irregulares, entre outras características. Já a ressonância magnética também identifica nódulos e áreas de realce após a administração do contraste.

Por isso, uma mamografia com Bi-Rads 4 e um ultrassom com Bi-Rads 2, por exemplo, não significa necessariamente que um dos exames esteja errado. Os métodos são complementares e têm capacidades distintas de avaliação.

Qual é a diferença entre Bi-Rads 4A, 4B e 4C?

As subdivisões indicam diferentes níveis de suspeita. O Bi-Rads 4A representa uma suspeita mais baixa, enquanto o 4B indica um nível intermediário e o 4C, mais elevada. Apesar dessas diferenças, as três categorias exigem investigação por biópsia.

O que é a biópsia e por que ela é necessária após um Bi-Rads 4?

A biópsia é um procedimento que retira uma amostra de tecido da região suspeita para que um médico patologista examine as células e determine a natureza da alteração. É essa análise que permite esclarecer se a lesão é benigna, apresenta atipias ou é maligna.

Quais são os tipos de biópsia utilizados na investigação do câncer de mama?

O tipo de biópsia é escolhido conforme as características da lesão e o exame em que ela foi identificada.

– Mamotomia: utiliza um sistema de aspiração para retirar amostras de tecido. É especialmente útil na investigação de microcalcificações identificadas na mamografia.

– Core biopsy: retira fragmentos de tecido com uma agulha, sem utilizar o mesmo mecanismo de aspiração da mamotomia.

– PAAF (punção aspirativa por agulha fina): aspira material com uma agulha fina e é utilizada principalmente em lesões líquidas.

Quanto tempo uma mulher pode esperar para fazer a biópsia após receber um Bi-Rads 4?

A recomendação da especialista é não adiar o procedimento. Ela considera razoável que a biópsia seja realizada de uma semana para outra ou em cerca de 15 dias, mas ressalta que, quanto antes a investigação for concluída, melhor. Isso porque ainda há o tempo necessário para a análise do material e a divulgação do resultado antes da definição do tratamento, quando necessário.

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