Relações exteriores e tarifaços marcam os desafios diplomáticos do governo
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva coloca a relação com os Estados Unidos, a disputa internacional por minerais críticos e a integração sul-americana entre os principais desafios da política externa brasileira para os próximos quatro anos.
Pressões comerciais e geopolíticas dos Estados Unidos
O novo mandato deverá preservar a estratégia de aproximação com países do Sul Global e de fortalecimento dos BRICS, mas terá de administrar a pressão comercial e geopolítica exercida pelo governo de Donald Trump, além de transformar a atuação diplomática em resultados econômicos concretos. Um dos obstáculos mais imediatos será avançar nas negociações para reduzir as tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros. Desde julho, parte das exportações nacionais enfrenta sobretaxas que chegam a 37,5%, afetando a competitividade das empresas brasileiras no mercado americano.
Para Diego Pautasso, doutor em Ciência Política pela UFRGS, a postura de Washington representa o principal desafio externo para o próximo governo. O especialista descreve a atuação americana como “uma política externa abertamente coercitiva, tanto do ponto de vista comercial, com tarifaços generalizados para o mundo todo, mas também com uma política de coerção em vários âmbitos e contra vários países”. Na mesma linha, o professor titular de Relações Internacionais da UnB, Roberto Goulart Menezes, avalia que a reeleição de Lula deve preservar as principais diretrizes diplomáticas atuais, mas exigirá habilidade para administrar a relação bilateral com Washington.
“Será um período bem difícil para a política externa brasileira, para as relações do Brasil com os Estados Unidos, se a atuação de Donald Trump no cenário internacional se basear pela agressividade”, afirmou o acadêmico.
O potencial e a industrialização dos minerais críticos
Outro desafio será equilibrar as relações com China e Estados Unidos em meio à disputa pelo controle de cadeias produtivas estratégicas, especialmente as de minerais críticos e terras raras. O Brasil possui reservas expressivas desses recursos, empregados na fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos militares e tecnologias avançadas. Apesar do potencial geológico, o país ainda dispõe de capacidade limitada de separação, refino e produção de componentes industriais, etapas de maior valor agregado.
Em setembro, o governo sancionou a PNMCE (Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos), que criou instrumentos para incentivar o processamento de minerais no país e estabeleceu o CIMCE. A legislação também abre espaço para a adoção de compromissos de agregação de valor vinculados à exportação de minerais estratégicos, conforme regulamentação específica.
Para Rinaldo Mancin, consultor especializado em mineração e minerais críticos e ex-diretor do Ibram, o desafio será transformar o interesse internacional pelos recursos brasileiros em investimentos capazes de desenvolver a indústria nacional. “Em um novo governo Lula, a tendência seria procurar conciliar a diversificação de parceiros, a atuação nos BRICS e uma política de desenvolvimento industrial. O desafio seria transformar essa orientação em projetos viáveis, com investimento, acesso à tecnologia e resultados mensuráveis”, afirma. Na avaliação do especialista, a proximidade de Lula com os BRICS e a política de diversificação de parceiros oferecem alternativas de negociação, mas também expõem o Brasil às pressões de Washington para limitar a participação chinesa em cadeias estratégicas.
“A pressão a resistir seria a de aderir a arranjos que assegurem o fornecimento de recursos brasileiros, mas deixem as etapas tecnológicas e industriais mais valiosas no exterior”, ressalta Mancin. O consultor destaca ainda que a disponibilidade de reservas minerais não garante protagonismo internacional, sendo necessário desenvolver infraestrutura e segurança jurídica.
Integração regional e agenda ambiental
Na América do Sul, Lula também terá o desafio de reconstruir mecanismos de integração regional em um cenário marcado pela aproximação de diversos governos com a administração Trump, incluindo iniciativas como o Escudo das Américas. Pautasso considera que a fragmentação política da região dificultou os esforços de integração promovidos pelo governo brasileiro nos últimos anos. O professor lembra que Lula tentou retomar essa agenda com a Cúpula de Brasília, realizada no início do mandato, mas encontrou resistência diante das diferenças políticas.
“Foi um movimento que o governo Lula fez logo no início com a Cúpula de Brasília, mas em função da fragmentação política da região, não conseguiu avançar como deveria”, avalia Pautasso. Outro ponto relevante será consolidar os benefícios do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, cuja aplicação provisória começou em maio de 2026.
Na agenda ambiental, Goulart Menezes avalia que o governo deverá preservar a política climática como instrumento de projeção internacional, buscando ampliar a participação brasileira em negociações e mecanismos de financiamento para a transição energética. Segundo o professor, o meio ambiente “certamente seguirá sendo uma das principais pautas para abrir portas para o Brasil internacionalmente e o Brasil manter uma posição de liderança na agenda ambiental climática”. Goulart também destaca a tendência de continuidade das iniciativas brasileiras de combate à fome, do fortalecimento dos BRICS e do aprofundamento das relações com a China, consolidando a busca por autonomia e resultados econômicos concretos.



