Gilberto kassab enfrenta crise no psd e atritos com tarcísio
A estratégia de expansão municipal
Reconhecido historicamente como um dos principais articuladores da política nacional, Gilberto Kassab construiu sua reputação apostando na formação de alianças e na ocupação de espaços de poder. Contudo, o presidente nacional do PSD passou a enfrentar um cenário desafiador que testa essa habilidade, acumulando derrotas na disputa presidencial, redução de cadeiras no Congresso e desgastes na relação com o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
Um dos maiores trunfos da sigla ocorreu nas eleições municipais de 2024, quando a legenda elegeu 887 prefeitos, incluindo cinco capitais, registrando um salto de 35% em comparação ao pleito anterior. Apenas no estado de São Paulo, o partido conquistou 205 prefeituras, superando amplamente o resultado de 2020. Essa capilaridade cresceu fortemente por meio da migração de lideranças que deixaram o PSDB, preenchendo o vácuo deixado pelos tucanos no cenário paulista.
No entanto, o avanço numérico gerou questionamentos de adversários, que acusavam a legenda de se beneficiar da máquina do governo estadual para atrair políticos já detentores de mandatos. Kassab negou veementemente o uso da estrutura governamental para favorecer aliados da sigla.
O revés na corrida presidencial
Se o cenário municipal fortaleceu o partido em âmbito local, a disputa nacional de 2026 representou um duro golpe para os planos do dirigente. Frustrado em sua tentativa inicial de viabilizar a candidatura de Tarcísio de Freitas ao Palácio do Planalto, Kassab precisou recalcular a rota quando o governador optou por buscar a reeleição em solo paulista.
A solução encontrada foi lançar o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, à Presidência, com o próprio Kassab ocupando o posto de candidato a vice. A chapa acabou a disputa na quinta colocação, somando 2,18% dos votos válidos.
Sobre os planos iniciais frustrados, o dirigente reconheceu a preferência anterior em entrevista: “Eu fiquei quatro anos tentando lançar o [governador de São Paulo] Tarcísio [de Freitas, do Republicanos] como candidato”. Em seguida, reforçou: “O meu candidato era o Tarcísio, todo mundo sabe.” O lançamento de Caiado serviu, portanto, para demarcar uma posição própria da legenda frente ao bolsonarismo após a desistência do paulista.
Perdas legislativas e desgaste com o governo paulista
A força territorial obtida nos municípios não se repetiu no Poder Legislativo. Na Câmara dos Deputados, a bancada encolheu de 48 para 44 parlamentares, enquanto no Senado a queda foi ainda mais drástica: dos atuais 14 representantes, o grupo passará a contar com apenas cinco a partir de 2027. Além disso, a sigla perdeu o comando de estados importantes, como Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul.
O desgaste com Tarcísio de Freitas também pesou ao longo do período eleitoral. Cotado inicialmente para ocupar a vaga de vice na chapa de reeleição do governador, Kassab viu o posto ser entregue a Felício Ramuth (MDB), o que gerou frustração interna.
Outro ponto de tensão veio a público em janeiro, quando Kassab sugeriu que o governador demonstrasse gratidão ao ex-presidente Jair Bolsonaro sem parecer “submisso”. A declaração gerou pronta reação de Tarcísio, que defendeu sua lealdade e rejeitou a associação entre gratidão e submissão. A situação chegou a tal ponto que, em maio, prefeitos e deputados estaduais cogitaram não atuar na campanha de reeleição do governador no primeiro turno, embora o presidente da legenda negasse qualquer orientação nesse sentido.
Reeleito no primeiro turno com 62,65% dos votos, Tarcísio ampliou seu capital político, mas aliados indicam que o presidente do PSD deve ficar de fora da futura composição do governo paulista.
Mesmo diante dos reveses recentes, a legenda preserva uma forte base municipal e mantém capacidade de articulação nos campos ideológicos variados, garantindo influência tanto no Congresso quanto nas negociações com o governo federal. As eleições de 2026 evidenciam os limites da estratégia de Kassab, mas mostram que sua relevância no tabuleiro político brasileiro continua ativa.



