Agro bate recordes, mas comida segue cara na mesa do brasileiro
O contraste entre a pujança das lavouras nacionais e a dificuldade do consumidor em fechar a conta do supermercado dominou as discussões em torno do Dia Mundial da Alimentação, data instituída pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e celebrada em 16 de outubro. Apesar de consolidado como um dos maiores fornecedores globais de mantimentos, o país ainda enfrenta o desafio de garantir comida acessível internamente, tema que pautou uma sessão solene no Congresso Nacional sob o lema “Inovar hoje para nutrir o amanhã”.
O peso da produção nacional no abastecimento do planeta
Entre janeiro e setembro, os embarques do agronegócio renderam US$ 133,6 bilhões ao país, uma expansão de 5,5% em comparação com o mesmo período do ano anterior, conforme apontam os números da plataforma Agrostat, ligada ao Ministério da Agricultura e Pecuária. Na tribuna, o senador Jayme Campos ressaltou o protagonismo da atividade rural como sustentáculo da economia, enquanto o representante do Ministério da Agricultura, Cleber Oliveira Soares, enfatizou que o Brasil envia produção para mais de 190 países e terá papel decisivo até 2050 para suprir a demanda global por grãos e proteínas.
A senadora Tereza Cristina, vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), pontuou que o desenvolvimento científico tropical e os ganhos de produtividade colocaram o país na vanguarda da oferta de alimentos. Contudo, parlamentares e líderes do setor alertaram que o volume recorde nas exportações não se traduz automaticamente em tranquilidade para as famílias brasileiras na hora das compras.
Inflação dos itens básicos pressiona o orçamento doméstico
Mesmo com safras elevadas, os preços de artigos de primeira necessidade registraram aumentos expressivos. Uma sondagem do Instituto Mises, fundamentada em levantamentos do Procon de São Paulo e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), revelou que itens cotidianos acumularam altas de até 61% entre 2022 e 2026.
O pacote de 500 gramas de café em pó, por exemplo, saltou de R$ 15,48 para R$ 24,86 no período analisado, configurando um salto de 61%. No mesmo intervalo, o leite longa vida subiu 24%, ao passo que o quilo da carne de primeira foi de R$ 42,01 para R$ 50,49 (alta de 20%). Paralelamente, o combustível que move o transporte dos produtos também encareceu: o litro da gasolina subiu 32%, passando de R$ 4,93 para R$ 6,53.
Custos de produção e gargalos que encarecem a comida
A composição do valor final dos produtos agrícolas depende de variáveis que vão muito além da colheita. Durante o encontro legislativo, o vice-presidente de Finanças da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Humberto Miranda Oliveira, frisou que enfrentar a fome requer combate à pobreza, ampliação do emprego e medidas estruturantes para baratear os produtos para a sociedade.
Financiamento e infraestrutura
Tereza Cristina cobrou do governo federal mecanismos que viabilizem alimentos baratos e de qualidade, destacando que o crédito rural não pode ter taxas proibitivas. O financiamento é apontado como peça-chave de segurança alimentar, permitindo ao produtor investir em insumos, modernização e irrigação, o que ameniza quebras de safra e evita repasses de custos ao consumidor final.
Insegurança jurídica e regularização fundiária
Outro entrave crônico citado pelo senador Jayme Campos diz respeito à ausência de escrituras definitivas no campo. Agricultores estabelecidos há três ou quatro décadas em determinadas propriedades continuam sem acesso facilitado a recursos bancários por falta do título da terra. Sem o documento, as garantias ficam restritas, desestimulando investimentos que poderiam baratear a produção.
O cenário expõe que a verdadeira segurança alimentar depende de um ecossistema eficiente que una logística adequada, estabilidade institucional, crédito compatível e renda para a população, assegurando que o êxito das lavouras chegue com fartura ao prato de quem vive no Brasil.



