Fim da escala 6×1 ameaça construção civil e encarece casa própria
A aprovação pelo Senado Federal da Proposta de Emenda à Constituição que encerra a escala 6×1 e diminui a jornada semanal de 44 para 40 horas gerou forte alerta na construção civil. Segundo a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), a mudança exigirá uma reformulação profunda que trará reflexos diretos nos prazos de entrega, nos valores finais das construções e na facilidade de acesso da população de baixa renda à moradia e ao saneamento.
Impacto direto no orçamento e na mão de obra
Para manter o ritmo atual de produção com a nova carga horária, o setor precisará realizar uma leva imediata de novas contratações estimada em 288 mil profissionais. Contudo, o principal obstáculo é a escassez desse contingente em um mercado que já sofre com a falta de pessoal qualificado.
A economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, destacou durante apresentação de estudos do setor que a redução de 208 horas anuais por trabalhador formal forçará as empresas a buscarem uma mão de obra que “não existe no país”.
O vice-presidente de Política de Relações Trabalhistas da CBIC, David Fratel, endossou a preocupação e lembrou que a nova dinâmica esbarra também na alta informalidade, já que cerca de 5 milhões de trabalhadores da construção civil atuam à margem da CLT.
Como reflexo, a adaptação poderá elevar os gastos com pessoal em até 15%. Apenas com encargos trabalhistas e previdenciários básicos, a necessidade de novos postos representará um peso extra de R$ 13,5 bilhões anuais. Além disso, a perda de quase 600 milhões de horas trabalhadas por ano atrasará cronogramas e diminuirá o ritmo produtivo.
Prejuízos à habitação popular e ao saneamento
O encarecimento atingirá de maneira mais severa o segmento voltado para famílias de menor renda. Os cálculos indicam uma queda de 30 mil unidades habitacionais financiadas a cada ano, deixando cerca de 83 mil pessoas desamparadas anualmente na busca pelo imóvel próprio. Em um período de cinco anos, a defasagem chegaria a 150 mil moradias a menos, impactando 415 mil cidadãos.
A infraestrutura básica também sofrerá reveses. Com a participação dos trabalhadores representando 34,2% dos custos em uma obra de referência, a necessidade de investimento anual no saneamento saltará de R$ 56,3 bilhões para R$ 58,23 bilhões.
“Com isso, o atual hiato anual de investimentos, estimado em R$ 11,8 bilhões, subiria para R$ 13,73 bilhões. Em um horizonte de dez anos, a necessidade de investimentos em saneamento passaria de R$ 563 bilhões para R$ 582,3 bilhões — um acréscimo de R$ 19,3 bilhões. Mantida a proporção entre investimentos públicos e privados observada em 2025, desse montante adicional, R$ 12,93 bilhões viriam do setor privado e R$ 6,37 bilhões do setor público”, detalhou a entidade.
Diante do cenário desafiador, a cúpula da entidade empresarial informou que continuará mantendo entendimentos com parlamentares em busca de soluções técnicas.
“Reconhecemos a importância e o mérito social dessa discussão”, afirmou Aroeira, ressaltando que os setores possuem realidades diferentes e que é preciso encontrar um caminho equilibrado que concilie as conquistas dos trabalhadores com a preservação de empregos, investimentos e da atividade produtiva nacional.



