12/10/2026

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As mulheres que sustentam o agro também estão decidindo o futuro dele

Sob o manto da fé e da força feminina, mulheres assumem cada vez mais decisões no agro brasileiro e ajudam a transformar a gestão no campo.Foto: Reprodução/Instagram @menina_da_fumicultura/ND Mais

No Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil e presença forte na fé de tanta gente do campo, a coluna de hoje é dedicada a elas.

Às mulheres agricultoras, às produtoras rurais, às filhas que ficaram na propriedade, às mães que seguraram a lavoura, às esposas que sempre trabalharam e por muito tempo foram chamadas apenas de “ajuda”, às jovens que estudaram, voltaram para casa e passaram a olhar para a propriedade como negócio, tecnologia, renda e futuro.

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O agro brasileiro sempre teve mulher. A diferença é que agora os números começam a reconhecer o que o interior já sabia faz tempo: elas não estão apenas na rotina da produção, elas estão na decisão.

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Estudo divulgado pela Associação Brasileira do Agronegócio, a ABAG, mostra que as mulheres já representam 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais considerados decisores no Brasil. É um dado grande e simbólico.

Porque decidir no campo não é pouco. É escolher o que plantar, quando investir, como financiar, que tecnologia usar, se amplia ou segura, se entra na cooperativa, se formaliza a agroindústria, se aposta no queijo, no café, no leite, na fruticultura, na flor, na criação, na venda direta, na sucessão ou na exportação.

Decisão no campo é vida real, e, cada vez mais, tem voz feminina.

Gestão, crédito e tecnologia

O estudo “Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro: 10 anos de transformação e avanços” foi lançado pela ABAG durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF) e desenvolvido em parceria com a Serasa Experian, a Fran6 Pesquisa e apoio do Sistema FAESP/SENAR.

O levantamento mostra uma transformação que vai além da presença. As mulheres avançaram em qualificação, propriedade, gestão financeira, tecnologia e responsabilidade socioambiental.

Entre as entrevistadas na etapa quantitativa, 91% são proprietárias totais ou parciais de negócios rurais. O dado representa avanço de 10 pontos percentuais em dez anos. A escolaridade também chama atenção: 77% têm ensino superior completo e 46% possuem pós-graduação. Em 2015, o percentual de pós-graduadas era de 24%. Ou seja: há uma geração de mulheres chegando ao comando do campo com formação, método e capacidade de gestão.

A tecnologia também entrou nessa conta. Cerca de 71% das produtoras declararam operar ferramentas tecnológicas de forma independente ou parcialmente independente, incluindo sistemas de gestão, drones, telemetria, bioinsumos e manejo hídrico. É a prova de que a modernização do agro não tem gênero, tem preparo.

Menos inadimplência, mais responsabilidade

Os dados de crédito também são importantes. Segundo a Serasa Experian, as gestoras rurais apresentam taxas de inadimplência menores que as dos homens, com destaque para grandes proprietárias e produtoras da Região Sul.

Isso não significa transformar mulher em personagem perfeita. Esse tipo de romantização não ajuda ninguém. Mas significa reconhecer um padrão de gestão que merece atenção: planejamento, cautela financeira, organização, cuidado com o risco e maior disciplina no uso do crédito.

No campo, crédito mal usado vira dívida e crédito bem usado vira investimento, renda e permanência. O estudo também cruzou dados do Cadastro Ambiental Rural, do Prodes e do Ministério do Trabalho.

Segundo o levantamento, os homens concentram 77% das ocorrências de trabalho escravo e 67% dos alertas de desmatamento analisados, enquanto os percentuais vinculados a CPFs femininos somam 5% e 20%, respectivamente. É um dado que reforça outra dimensão da presença feminina: gestão com responsabilidade ambiental e social. Não por discurso, por prática.

Santa Catarina aparece na frente

Santa Catarina tem um lugar especial nessa história. De acordo com dados do Censo Agropecuário do IBGE citados em levantamentos sobre o tema, o Estado aparece com um dos maiores índices de mulheres à frente das propriedades rurais. São quase 19 mil agricultoras responsáveis pela gestão de estabelecimentos agropecuários, cerca de 11% do total.

O número pode parecer pequeno quando visto isoladamente. Mas, em um ambiente historicamente masculino, ele representa mudança estrutural.

E Santa Catarina tem características que ajudam a explicar esse avanço: agricultura familiar forte, cooperativismo, agroindústrias, propriedades menores, diversificação produtiva, presença intensa de mulheres na rotina da propriedade e cadeias em que gestão, detalhe e continuidade fazem muita diferença.

O desafio é fazer com que essa presença saia da invisibilidade e chegue aos espaços formais de decisão: cooperativas, sindicatos, associações, conselhos, bancos, assistência técnica, sucessão familiar e política pública.

Cooperativismo também precisa olhar para elas

O cooperativismo catarinense mostra bem essa contradição. As mulheres já representam uma fatia expressiva do quadro de cooperados em Santa Catarina. Dados da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina, a Ocesc, mostram crescimento consistente da participação feminina nas cooperativas.

Mas presença na base não significa, automaticamente, presença no comando. Ainda há distância entre ser cooperada e ocupar cargo de direção. Entre participar da produção e assinar decisões. Entre trabalhar na propriedade e ser reconhecida como gestora.

Essa é uma das próximas fronteiras. Porque se as mulheres já ajudam a sustentar a produção, também precisam ter espaço proporcional na estratégia. Não se trata de substituir homens por mulheres. Trata-se de somar inteligência, experiência e olhar.

Como afirmou Gislaine Balbinot, diretora executiva da ABAG, “homens e mulheres não competem no campo, eles se complementam”. É uma frase simples e verdadeira. O agro precisa parar de tratar liderança feminina como concessão. Liderança feminina é competência disponível.

O mundo também está olhando para elas

A pauta não é apenas brasileira. A Organização das Nações Unidas declarou 2026 como o Ano Internacional da Mulher Agricultora, sob coordenação da FAO.

O objetivo é dar visibilidade ao papel das mulheres nos sistemas agroalimentares, reconhecer os desafios que elas enfrentam e incentivar políticas públicas, investimentos e alianças que reduzam desigualdades no campo.

No mundo inteiro, mulheres produzem alimentos, cuidam da terra, preservam sementes, administram pequenas propriedades, sustentam famílias e movimentam economias locais. Mas muitas ainda enfrentam barreiras de acesso a terra, crédito, assistência técnica, tecnologia, capacitação e liderança.

No Brasil, esse debate precisa sair do discurso bonito e entrar na prática. Pronaf, seguro rural, assistência técnica, sucessão familiar, conectividade, capacitação, crédito, cooperativismo e agroindústria precisam olhar para as mulheres como público central, não como rodapé.

A fé e a força de quem fica

No feriado de Nossa Senhora Aparecida, é impossível não pensar na fé do campo.

Na imagem no canto da cozinha, na reza antes da chuva, na promessa pela colheita, na vela acesa pela saúde da família, na mãe que levanta cedo, tira leite, faz almoço, cuida da casa, resolve nota, atende técnico, participa da reunião, organiza filho, confere conta, ajuda no manejo e ainda ouve que “não trabalha fora”.

O Brasil rural foi construído também por essas mulheres. Agora, aos poucos, elas passam de invisíveis a decisivas. E isso muda tudo. Muda a gestão, muda a sucessão, muda o crédito, muda a tecnologia, muda a forma de olhar para a propriedade e muda o futuro do agro.

No Dia de Nossa Senhora Aparecida, que a homenagem venha com reconhecimento. Porque as mulheres que sustentam o agro também estão decidindo para onde ele vai, com força, talento e fé.

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