banner-anuncie-aqui
previous arrow
next arrow
Brasil

Verba pública para obras em Fartura vai para shows de Jorge e Mateus

Tribunal de Contas apontou desvio de finalidade em repasse federal que deveria ter sido aplicado em melhorias na infraestrutura urbana.

Emenda de obras é desviada para pagar shows de Jorge e Mateus em SP

Recursos federais que deveriam ser aplicados em melhorias urbanas na cidade paulista de Fartura acabaram sendo redirecionados para o pagamento de apresentações musicais, incluindo um show da dupla Jorge & Mateus.

O destino original da verba

A transferência de R$ 1,14 milhão teve origem em uma emenda articulada pelo ex-deputado Samuel Moreira, que atualmente exerce o cargo de prefeito de Registro (SP). O repasse foi creditado em outubro de 2023 com a finalidade exclusiva de financiar melhorias de infraestrutura no município do interior paulista.

Entre as intervenções que constavam no plano de trabalho inicial estavam a pintura de uma unidade básica de saúde, a instalação de postes e luminárias na região central, a implantação de uma academia ao ar livre e a adequação estrutural do balneário municipal.

Cachês milionários na Expofar

Apesar do planejamento voltado para investimentos, o montante acabou integralmente direcionado para a contratação de três atrações artísticas que se apresentaram na Exposição Feira Agropecuária e Industrial de Fartura (EXPOFAR), ocorrida em abril de 2024.

O cachê mais alto foi pago à dupla Jorge & Mateus, que recebeu R$ 556 mil. Na sequência, a programação incluiu as duplas Ícaro & Gilmar, contratadas por R$ 350 mil, e Clayton & Romário, no valor de R$ 240 mil.

Irregularidades apontadas pelos órgãos de controle

O desvio de finalidade veio à tona por meio de fiscalizações do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo. Um relatório obtido pela imprensa detalha a irregularidade: “os recursos recebidos por meio das emendas se destinavam à realização de Despesas de Capital (Investimento), entretanto, verificou-se que houve aplicação em despesas de custeio no montante de R$ 1.146.000,00 para a contratação de Show Artístico, revelando desvio de finalidade na aplicação desses recursos”.

Paralelamente, a Câmara Municipal havia avalizado outra movimentação financeira para o mesmo evento, desta vez no valor de R$ 1,15 milhão, enviada pelo deputado federal Luiz Carlos Motta. O pedido foi formalizado pelo ex-prefeito Luciano Peres, que administrou a cidade entre 2021 e 2024.

Em documento protocolado à época, o ex-chefe do Executivo municipal justificou o pedido com a seguinte argumentação: “Trata-se de verba do Ministério do Turismo recebida pelo Município de Fartura por intermédio do Exmo. Deputado Federal Luiz Carlos Motta, e destinada à Coordenadoria de Turismo para o custeio dos shows da XXXII EXPOFAR, no sentido de contribuir com as demandas de desenvolvimento comercial, turístico e cultural de nossa cidade”. A solicitação foi classificada por ele como “Urgente, Urgentíssimo“.

Apesar da tramitação, a liberação efetiva de R$ 700 mil para essa segunda emenda ocorreu apenas em julho de 2024, meses após o encerramento da feira agropecuária.

Posicionamento da administração atual

O sistema federal de repasses também apontou falhas procedimentais na execução dos recursos. O relatório de gestão registrou que a “programação inicial previa despesa de custeio (evento artístico). Entretanto, o recurso foi classificado como investimento (Natureza de Despesa 4.4.40.41 – Investimentos), o que demandaria nova autorização legislativa para alteração do objeto, fato que não ocorreu”.

Diante do cenário, a atual gestão da Prefeitura de Fartura, liderada pelo prefeito Luiz Marcos de Souza, notificou o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos sobre as falhas administrativas identificadas no período anterior.

Em nota enviada aos órgãos federais, a atual administração destacou: “Conforme o relatório de Fiscalização do TCE/SP, parte dos recursos foi aplicada em despesas de custeio (…) para pagamentos de shows da EXPOFAR, contrariando a finalidade de investimento prevista no plano de ação”.

Até o fechamento desta reportagem, os citados no caso — incluindo o ex-prefeito Luciano Peres, o ex-deputado Samuel Moreira e o deputado federal Luiz Carlos Motta — não haviam se pronunciado sobre as irregularidades apontadas nas contas públicas do município.