Fãs da cultura pop e gamers lideraram campanha digital pró-lula
Estudo revela como estratégias orgânicas nas redes sociais impulsionaram a reeleição do presidente brasileiro

A mobilização online em prol da reeleição do presidente Lula no segundo turno foi encabeçada por fãs de música pop, ficção científica, gamers e adeptos da cultura nerd, conforme aponta um estudo divulgado pelo laboratório CULTPOP, vinculado à Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com pesquisadores de mais de dez instituições de ensino superiores públicas e privadas do país.
Estratégias digitais e inteligência artificial Entre 3 e 20 de outubro, equipes monitoraram plataformas como Instagram, TikTok, X e Threads durante jornadas diárias de seis a oito horas, além de realizarem pesquisas presenciais em São Paulo. O levantamento identificou um volume inédito de conteúdos gerados de forma orgânica por nichos específicos, articulados por prazos e missões para difundir mensagens de apoio ao candidato petista.
Uma das táticas mais recorrentes consistiu no uso de inteligência artificial generativa para produzir memes, deep fakes e sátiras visuais. Nelas, o presidente aparecia caracterizado como divas da música internacional e nacional, além de ser inserido em cenas de realities e novelas, gerando alta viralização.
“Muito da população pop digital é queer. Traços como o dark woke são nativos desse público”, explica Beatriz Blanco, professora e pesquisadora do laboratório CULTPOP, acrescentando que esse movimento foi capitaneado por mulheres e pela comunidade LGBTQIA+, que costumam criar uma relação de identidade com artistas que admiram.
A pesquisadora também destaca que a assinatura de leis voltadas ao combate ao cambismo digital e à facilitação do acesso à meia-entrada representou um aceno inédito do governo a esses grupos.
“Sempre teve meme em eleição, mas dessa vez houve uma aproximação maior do governo. Esse também foi o diferencial dele em relação aos outros candidatos”, diz, explicando que nomes como Flávio Bolsonaro (PL) e Renan Santos (Missão), apesar de fortes no ambiente digital, não conseguiram alcançar esses nichos por não dominarem a linguagem usada por eles. “É um tipo de diálogo digital que os grupos de extrema-direita não acessam porque não sabem falar com esse público.”
O papel das páginas especializadas O fenômeno ganhou tração com a criação da página “Fandoms com Lula”, em 3 de outubro, que rapidamente ultrapassou cem mil seguidores. O perfil era gerido por administradores de comunidades dedicadas a ícones do k-pop, pop norte-americano, música brasileira, Fórmula 1, futebol e super-heróis.
“Nós entendíamos que existia um algoritmo favorecendo o outro lado. A partir disso, começamos a traçar estratégias para furar a bolha e alcançar as abstenções e indecisões”, explica Thaís Borges, assistente social carioca, de 27 anos, que administra uma página dedicada ao grupo de k-pop Mamamoo. Ela é uma das fundadoras e administradoras do Fandoms com Lula. “Eram estratégias para compartilhar os feitos e propostas da campanha, não para atacar o outro lado.”
O período eleitoral também foi marcado por questionamentos de observadores da ONU e do Comitê de Supervisão da Meta sobre falhas na moderação de conteúdos no Brasil, enquanto a empresa alegou problemas técnicos e negou interferência.
“Entramos nos 45 minutos do segundo tempo porque a comunicação do governo pecou muito”, conta Lucas Boleno, biólogo recifense de 24 anos, que também administra um perfil de fãs da cantora Adéla paralelamente ao Fandoms com Lula. “A gente sabe como o algoritmo funciona, sabe como subir hashtag no X… Nós temos costume de organizar mutirão para votação em premiação, então o que aprendemos a fazer é manter o foco no que importa.”
Engajamento no universo dos games A campanha também alcançou o ambiente dos jogos eletrônicos, especialmente na plataforma Roblox, onde usuários simularam carreatas e manifestações políticas virtuais. Cássio Queiroz, estudante de 16 anos do município mineiro de Ponto dos Volantes, liderou a iniciativa “Time Lula no Roblox”, reunindo dezenas de milhares de participantes.
“Eu senti que tinha que fazer alguma coisa para Lula ganhar o segundo turno. Eu queria mobilizar pessoas de vários estados e cidades. Tipo assim, decidi fazer de todo o Brasil e conseguir mais engajamento”, explica.
“Eu já fui em mobilizações na minha cidade, mas não foi nada grande. Eu acho que [no Roblox] é mais emoção, mais interação, mais conectividade…. É mais divertido porque várias pessoas de vários estados podem se juntar.”
Repercussão internacional e desdobramentos O modelo de mobilização digital serviu de inspiração para eleitores em outros países, aparecendo em campanhas nos Estados Unidos, Espanha e Irã, impulsionado pelo uso intenso de memes e bom humor.
O impacto da estratégia orgânica foi reconhecido pelo próprio presidente durante sua live de comemoração da vitória, quando agradeceu diretamente aos apoiadores e elogiou o engajamento.
“Se tem uma coisa que eu faço questão de agradecer foram os milhões de fandoms que foram para a rua. Eu, sinceramente, fiquei boquiaberto de ver a qualidade e a vontade de ir para a rua que eles tiveram”, disse Lula. “Eu sou fã de vocês.”
Com o encerramento do pleito, os organizadores das páginas e comunidades pretendem manter a articulação política e cobrar propostas, enquanto jovens lideranças planejam acompanhar de perto a posse presidencial.


