Papa Leão XIV na América do Sul: entenda por que o Brasil ficou de fora
Pontífice realiza viagem histórica de 12 dias pelo Cone Sul e Peru após cirurgia no pulmão, priorizando nações negligenciadas pelo antecessor.

O papa Leão XIV iniciou em Montevidéu a maior jornada de seu pontificado, abrangendo 12 dias, 31 mil quilômetros percorridos, três países, além de dezenas de discursos e homílias. A incursão ocorre apenas 24 dias após o líder católico passar por uma cirurgia em Roma para a extração do lobo inferior do pulmão direito devido a um adenocarcinoma, quadro que, segundo comunicado do Vaticano emitido em 21/10, foi totalmente localizado e dispensou terapias complementares.
Uma rota desenhada entre a diplomacia e a pastoral
Embora tenha caráter pastoral, o trajeto também carrega forte peso diplomático. O Brasil, que estendeu convites formais em mais de uma oportunidade, acabou ficando de fora da programação oficial. O itinerário foi distribuído por três nações com realidades distintas:
Uruguai (6 a 8/11): O território menos católico da região, onde pouco mais de 36% da população professa a fé católica e quase metade se declara sem religião, agnóstica ou ateia. Nenhuma visita papal ocorria no país há 38 anos, desde a passagem de João Paulo II. A programação contempla reuniões com o presidente Yaman dú Orsi, passagens por zonas vulneráveis como o bairro Casavalle e celebrações religiosas em Paysandú e no santuário nacional em Florida.
Argentina (8 a 11/11): Terra natal do papa Francisco, que jamais retornou ao país natal após assumir o papado. Leão XIV será recepcionado por Javier Milei na Casa Rosada, passagem classificada pelo mandatário argentino como “histórica”, além de compromissos em projetos sociais, universidades e presídios antes da missa solene em Luján.
Peru (11 a 16/11): Nação onde o pontífice residiu por cerca de duas décadas, atuando como bispo de Chiclayo entre 2015 e 2023 e onde detém cidadania. Estão previstos encontros com a presidente Keiko Fujimori e passagens por Lima, Chiclayo, Cusco e pela cidade amazônica de Pucallpa.
O significado político da ausência brasileira
A seleção de destinos privilegia margens, presídios, comunidades periféricas e povos originários em detrimento de grandes cúpulas palacianas. Tanto o Brasil quanto o México manifestaram interesse em receber o pontífice, e fontes da CNBB já apontavam desde maio que o foco seria contemplar territórios do Cone Sul que o antecessor não havia visitado.
O convite brasileiro vinha sendo costurado há tempos: o vice Geraldo Alckmin entregou a proposta em maio de 2025, e o presidente Lula a renovou pessoalmente no Vaticano em outubro daquele ano, estendendo um chamado para a COP30, evento que o papa não conseguiu atender. Não há um novo cronograma estipulado. Apesar de conhecer o país por sua trajetória como superior geral dos agostinianos, a ausência atual reflete prioridades de agenda e uma dívida pastoral com vizinhos sul-americanos, gerando contudo um efeito visual em que o Brasil assume um papel secundário na região.
Aproveitamento político em Buenos Aires e o fator Amazônia
A chegada à Casa Rosada em 8 de novembro ocorre em meio ao momento mais delicado nas relações bilaterais entre Brasil e Argentina em décadas. A crise se aprofundou quando Milei participou do lançamento da campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, em 25 de julho, e proferiu ofensas contra Lula. A reação diplomática incluiu a retirada temporária do embaixador Julio Bitelli e o rebaixamento da representação brasileira.
O assessor especial da presidência, Celso Amorim, classificou o atrito como a pior crise desde a redemocratização, agravada pelo silêncio de Milei frente à vitória eleitoral brasileira. Para o governo argentino, a recepção ao papa funciona como um valioso instrumento de legitimidade. No entanto, analistas apontam que a Santa Sé opera com horizontes temporais amplos e mensagens morais, descartando qualquer tentativa de mediação no conflito diplomático.
O Brasil volta a figurar indiretamente no radar papal no dia 15 de novembro, quando Leão XIV estiver em Pucallpa, na Amazônia peruana, dialogando com missionários e comunidades locais. O compromisso coincide com a realização da COP31 em Antalya, na Turquia, onde Lula marcará presença na cúpula de líderes. Dessa forma, as mensagens do pontífice em defesa da floresta tropical acabarão repercutindo na pauta ambiental brasileira, mesmo sem pisar em solo nacional.


