Mega data center de inteligência artificial causa polêmica no Canadá
Com custo bilionário e alta demanda energética, empreendimento gera preocupações sobre impactos ambientais e emissões de carbono.

Um ambicioso empreendimento voltado para a inteligência artificial planejado para a região de Greenview, na província canadense de Alberta, está no centro de uma intensa controvérsia devido ao seu gigantesco consumo de recursos e potencial impacto térmico.
O projeto bilionário Wonder Valley
Batizado de Wonder Valley, o complexo é uma iniciativa da O’Leary Digital respaldada por um aporte financeiro estimado em 70 bilhões de dólares canadenses. A proposta consiste em erguer o que está sendo anunciado como o maior parque industrial de data centers voltados para IA do mundo, contando inclusive com usinas próprias movidas a gás natural e energia geotérmica para suprir suas necessidades operacionais.
O objetivo principal da infraestrutura é atender à crescente demanda por processamento de dados em hiperescala exigida por empresas de tecnologia. Contudo, as dimensões da iniciativa alarmaram especialistas e comunidades locais, resultando em questionamentos jurídicos e pedidos formais por avaliações ecológicas aprofundadas.
Impacto térmico e ambiental
Um estudo técnico elaborado pelo físico Robert Davies, vinculado à Utah State University, levantou sérias advertências sobre a magnitude do empreendimento. A pesquisa foi encomendada pela nação indígena Sturgeon Lake Cree, que ingressou com uma ação judicial para barrar o avanço do projeto sem uma rigorosa fiscalização prévia.
O documento aponta que o data center previsto para construção no distrito de Greenview, em Alberta, pode gerar, todos os dias, “o equivalente em energia a 23 bombas atômicas como a de Hiroshima”.
A afirmação é do físico Robert Davies da Utah State University, que completa: “Nas condições propostas, este local se tornará uma das maiores fontes únicas de calor no planeta”.
As consequências, segundo Davies, incluem o aumento da temperatura do ar e o uso de gigantescos ventiladores industriais para resfriá-lo. “Isso consome eletricidade e produz barulho considerável”, acrescentou.
Consumo energético e emissões
O relatório detalha ainda a escala monumental da operação necessária para manter os servidores funcionando ininterruptamente.
“[A proposta] exigiria aproximadamente 9 gigawatts de eletricidade, produzida a partir de gás natural no mesmo local”, detalhou o especialista. “Isto significa queimar combustível de forma contínua, numa ordem de 16 a 18 gigawatts, noite e dia, o ano todo.”
Diante desses números, o físico conclui que o complexo industrial pode se consolidar como o maior emissor de gases poluentes de todo o país, contrariando as promessas de sustentabilidade divulgadas pelos organizadores.
Desafios do sistema de resfriamento
Para lidar com o calor gerado pelas máquinas, o projeto precisará de uma infraestrutura colossal de ventilação, o que por si só representa um problema logístico e energético considerável.
“Requer cerca de dois mil ventiladores grandes, no mínimo, e possivelmente milhares de ventiladores menores”, estima. “Só os ventiladores consumiriam cerca de 400 a 500 megawatts de eletricidade continuamente: é uma pequena usina elétrica dedicada somente a girar as pás.”
A poluição sonora gerada por esses equipamentos é outro ponto crítico apontado no processo, visto que o ruído constante afetaria tanto os trabalhadores da região quanto a fauna nativa da floresta boreal vizinha.
Posicionamento oficial
Enquanto lideranças originárias e ambientalistas cobram rigor na fiscalização, o governo local argumenta que o parque industrial será autossuficiente em água e energia, evitando sobrecarregar os recursos públicos de Alberta. Por sua vez, a desenvolvedora sustenta que o diálogo com os habitantes originários faz parte do planejamento estratégico.
“A consideração pelo meio ambiente está integrada em todo o processo, com foco em identificar impactos com antecedência e trabalhar em colaboração com comunidades, reguladores e especialistas técnicos para evitar, minimizar e mitigar efeitos ambientais no design, na localização e nas práticas operacionais do projeto”, afirma a empresa na página do Wonder Valley Alberta.



