01/11/2026

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Novas simulações desafiam teoria de que cometas trouxeram vida à Terra

Pesquisas recentes baseadas em simulações computacionais colocam em dúvida uma das hipóteses mais tradicionais sobre a origem da vida no planeta, sugerindo que os cometas podem não ter tido o papel salvador que cientistas imaginavam há décadas.

O impacto dos cometas na Terra primitiva

Há mais de 4 bilhões de anos, o planeta passou por um período de intenso bombardeio que envolveu mais de 100.000 cometas com mais de 100 metros de diâmetro. Os dados foram divulgados em um estudo publicado no periódico Scientific Reports. Os cientistas usaram modelos avançados de evolução de cometas para simular esse cenário 100.000 vezes, avaliando a viabilidade da panspermia, ideia proposta em 1908 de que os ingredientes vitais vieram do espaço.

“Considerando o que sabemos sobre os ambientes da superfície da Terra primitiva, em média, nossas simulações constataram que não houve impactos bem-sucedidos”, afirmou o autor principal do estudo, Richard Anslow, pesquisador que conduziu o trabalho durante seu doutorado no Instituto de Astronomia da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Velocidade e destruição molecular

Os cometas costumam ser chamados de “bolas de neve sujas” devido à sua composição de poeira, gelo e material orgânico. A nova análise, no entanto, indicou que a velocidade com que esses corpos celestes atingiam a atmosfera terrestre era alta demais para preservar sua carga frágil.

“As velocidades típicas desses cometas ao impactarem a Terra significavam que, na verdade, muito poucos, ou nenhum, seriam capazes de transportar moléculas orgânicas intactas. Portanto, os cometas não parecem ser tão úteis para a química pré-biótica quanto se pensava anteriormente”, explicou Anslow.

O modelo mostrou que 54% das simulações não registraram nenhum impacto, enquanto os 46% restantes tiveram pelo menos uma colisão.

“Não podemos descartar com certeza que nunca houve um impacto bem-sucedido, pode ter havido um desses impactos fortuitos”, pontuou o pesquisador, ressaltando que o evento exigiria condições perfeitas e simultâneas de água líquida e elementos químicos adequados.

O papel do cianeto de hidrogênio

O estudo analisou o cianeto de hidrogênio (HCN), um importante precursor químico detectado em diversos cometas, como o Halley e o Hale-Bopp. A substância é formada por hidrogênio, carbono e nitrogênio e pode gerar aminoácidos quando combinada com a água.

“Quando os cometas atingem a Terra, são submetidos a altas temperaturas e pressões, e estudos recentes descobriram que muitas dessas moléculas precursoras podem ser destruídas por essa alta pressão e temperatura, bem como pelos impactos subsequentes”, detalhou Anslow.

Além disso, compostos vitais como fósforo e enxofre dificilmente são encontrados nesses objetos gelados.

Alternativas e o papel de Marte

Com a queda da teoria cometal, outras hipóteses ganham força, como a síntese espontânea de moléculas na sopa primordial da Terra ou a contribuição de asteroides mais lentos, como Bennu e Ryugu. Outra possibilidade levantada é que o antigo Marte tenha sido mais hospitaleiro para esses impactos devido ao seu tamanho e distância do Sol.

“Como Marte é muito menor que a Terra e está mais distante do Sol, a velocidade típica de impacto dos cometas é muito menor, então, enquanto esses impactos na Terra destruíam a maior parte do HCN, o mesmo não acontecia em Marte”, disse Anslow, acrescentando que a tese oferece “é apenas mais uma perspectiva para termos em mente quando tentamos entender a evolução inicial de Marte com mais detalhes”.

Apesar dos resultados robustos, alguns especialistas ponderam que a discussão continua aberta. A professora Queenie Chan, da Royal Holloway University of London, observou que reações químicas prévias poderiam ter gerado compostos menos voláteis.

“Portanto, a ineficiência no fornecimento de HCN intacto não descarta completamente um papel potencial dos cometas no fornecimento de outros compostos orgânicos importantes que podem ter contribuído para o estoque orgânico pré-biótico da Terra antes do surgimento da vida”, escreveu Chan.

Por fim, a professora Nicolle Zellner, do Albion College, afirmou não ter se surpreendido com as conclusões, destacando que “os autores definitivamente estabeleceram parâmetros sólidos em torno dessa probabilidade”.