Como Trump se tornou intocável para governo e oposição na Venezuela
Quase dez meses após a captura do ditador Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em seu bunker no sudoeste de Caracas, a presidente interina, Delcy Rodríguez, e a principal líder da oposição, María Corina Machado, evitam qualquer confronto aberto com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ambas mantêm cautela diante da política externa norte-americana e da situação dos migrantes venezuelanos.
A guinada anti-imperialista do chavismo A postura atual contrasta com a identidade política construída pelo chavismo ao longo de décadas. Durante as horas seguintes à operação militar de 3 de janeiro, Rodríguez denunciou a “agressão militar” dos Estados Unidos e prometeu que seu país “jamais voltaria a ser colônia de nenhum império”. No entanto, exceto por esse momento inicial, a presidente interina optou por ignorar as bravatas do líder norte-americano.
Rodríguez evitou usar a tribuna da Assembleia Geral da ONU para atacar Washington — quebrando uma tradição de líderes chavistas, a exemplo de quando Hugo Chávez chamou George W. Bush de diabo. A estratégia atual busca garantir acesso a investimentos e cooperação internacional, além de promover uma transição “rumo a uma democracia plena” alinhada ao plano de três fases do secretário de Estado, Marco Rubio.
O xadrez político e a pressão da oposição Por outro lado, María Corina Machado sempre manteve forte aliança com Washington e busca retornar à Venezuela para evitar a perda de influência política, já que seu movimento ficou fora da mesa de diálogo. Ela propôs que as eleições ocorram em 24 de julho de 2027, data do nascimento de Simón Bolívar, o libertador da Venezuela. Em artigo publicado no New York Post em 5 de outubro, Machado escreveu que os venezuelanos que vivem no exterior só retornarão se houver um caminho claro rumo à democracia, reforçando que a volta deles é “urgente” para acompanhar e organizar a cidadania.
Silêncio diante da crise migratória Apesar do histórico de condenações a políticas punitivas dos Estados Unidos, nem o governo interino nem a oposição se manifestaram criticamente sobre a endurecida política de deportações de Trump ou sobre casos graves de violência envolvendo imigrantes venezuelanos detidos pelo ICE. Entre os episódios de grande repercussão estão o de Wilber Rafael Garcés Pérez, baleado em Austin, e os ferimentos sofridos por Luis David Niño-Moncada e Yorlenys Zambrano-Contreras em Portland, cujos advogados negaram ligações com o crime organizado.
Em campos ideológicos apostos, tanto Rodríguez quanto Machado demonstram a profunda dependência e o peso que Washington passou a exercer sobre os rumos políticos e econômicos da Venezuela.



