Investidores buscam seguro na bolsa contra volatilidade eleitoral
Às vésperas da decisão do segundo turno para a Presidência da República, investidores passaram a buscar mais proteção contra a esperada oscilação na bolsa brasileira a partir da próxima semana. O cenário reflete a indefinição do resultado das urnas expresso pelas mais recentes pesquisas, com o senador Flávio Bolsonaro (PL) tecnicamente empatado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Proteção contra volatilidade na bolsa
Analistas ouvidos pelo CNN Money reforçam que o movimento não é um sinal de descrença na vitória de Flávio – que tem o maior apoio da Faria Lima pela expectativa de mudança de rota da política fiscal –, mas uma espécie de “seguro” ante o quadro de forte volatilidade. Este comportamento fica evidente nas opções de EWZ, o principal fundo que replica ativos do Ibovespa em Wall Street.
Os investidores utilizam contratos de compra, conhecidos como call, para apostar na alta do mercado, ou de venda, chamados de put, que indicam uma expectativa de desvalorização. O economista-chefe da Nomus, Beto Saadia, explica que a razão put/call compara a quantidade de posições em aberto no mercado financeiro.
No início de outubro, o indicador estava ao redor de 0,31, mas saltou para 0,40 nesta semana. O aumento ocorreu porque o número de posições abertas em puts cresceu acima das calls.
“Quando a razão put/call sobe, há mais posições sendo abertas em puts do que em calls, o que pode sugerir uma postura mais baixista ou defensiva no mercado de opções”, explica o economista.
Crescimento nos contratos de venda
Os números gerais mostram que, em uma quinta-feira recente, havia 12,7 milhões de contratos de EWZ em aberto, sendo mais de 9 milhões em calls e cerca de 3,6 milhões em puts. No dia 1º de outubro, o total era de 9,3 milhões de contratos, divididos entre 7,1 milhões de calls e 2,2 milhões de puts.
Embora as opções de alta continuem em ampla maioria, os contratos de baixa registraram alta de 63,6%, enquanto a opção contrária subiu 27,4%. Para Saadia, o dado não significa que o mercado duvide de Flávio Bolsonaro, mas demonstra uma precaução diante de um cenário eleitoral visto como binário.
“Já que montaram posições, é natural que queiram comprar proteção caso essa ideia dê errado”, diz.
O head da mesa de derivativos do BTG Pactual, Jerson Zanlorenzi, reforça que a busca por segurança representa cautela e não uma mudança de expectativa sobre o pleito. Ele também conecta o movimento ao forte rali vivido pelo Ibovespa após o primeiro turno, quando o índice ultrapassou a marca de 209 mil pontos.
“Foi muito mais compra de uma proteção do que eventualmente uma mudança de precificação”, resume Zanlorenzi, acrescentando que os investidores buscam blindar os lucros recentes: “Boa parte dos investidores capturou essa alta toda do primeiro turno e falou assim: ‘vou comprar um pouco de seguro agora, porque eventualmente não quero correr o risco de ter que devolver tudo que a gente já teve de resultado positivo’”.
Impacto na volatilidade e prêmio dos ativos
O afunilamento das expectativas eleitorais elevou a volatilidade implícita do EWZ para cerca de 65%, o dobro do patamar visto no início de setembro. Zanlorenzi pontua que o índice se equipara ao período da pandemia de Covid-19 e fica muito acima da média histórica de 18% registrada nas últimas 52 semanas.
Esse ambiente incerto encarece o prêmio das ações, já que o mercado aguarda uma reação forte após a apuração dos votos. “Não tem como o mercado abrir na segunda-feira calma. Para algum lado ele vai abrir”, conclui o especialista do BTG Pactual.



