23/10/2026

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Especialistas veem desafio em abstenções e destacam papel dos indecisos

Durante o primeiro turno das eleições, o Brasil registrou o maior nível de abstenção desde 1998, com 33,4 milhões de eleitores que não foram às urnas, o equivalente a 21% dos cerca de 158,7 milhões de votantes aptos em 2026.

Essa fatia do eleitorado chamou a atenção dos candidatos à Presidência da República como possibilidade de votos válidos para o segundo turno, capaz de impulsionar uma vitória menos apertada para Flávio Bolsonaro (PL) ou uma virada para Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

As motivações de ausência podem variar por razões de força maior, como imprevistos de saúde e de trabalho, assim como a ausência no domicílio eleitoral no dia da votação ou uma forma de protesto ou desânimo com os candidatos participantes.

Apesar de não contar com um dado concreto de quantas ausências são voluntárias dentre esse grupo de eleitores, o cientista político e mestre em economia Renato Dolci fala da necessidade de separar esses votantes aptos dos que não compareceram às urnas por outros motivos. Para ele, o motivo mais plausível para as faltas é uma crise de representação.

“O eleitor pode acompanhar o debate público, ter demandas concretas e, ainda assim, não acreditar que algum candidato represente uma possibilidade de mudança. Nesse caso, a ausência deixa de ser apenas uma questão de desinteresse e passa a expressar um distanciamento entre a sociedade e o sistema político”, diz.

Na análise de Murilo Medeiros, cientista social da UnB (Universidade de Brasília), a motivação é similar, como um “sintoma do distanciamento entre a política e a sociedade”. Ele destaca que muitos eleitores podem perder a perspectiva de que seu voto cause mudanças concretas no país devido ao cenário atual.

“A polarização persistente, os elevados índices de rejeição dos candidatos, somados à percepção de que o voto já não é capaz de produzir mudanças concretas, contribuem para afastar o eleitorado das urnas”, completa.

Os especialistas apontam que esses 21% de abstenções não são o único público no qual os candidatos devem focar em alcançar o voto, mas aponta também para a fatia de indecisos. Segundo pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (21), o percentual de pessoas que não decidiram seu voto dobrou de 7% para 14% em uma semana.

Para Dolci, além de apostar na narrativa de medo do adversário pelo eleitor, é importante que se apresentem propostas concretas que possam transformar a vida desse eleitor indeciso que está fora da polarização.

Já Medeiros aponta também a importância de os candidatos focarem nos eleitores pendulares, aqueles que podem mudar o voto. Dentre esse grupo, ele aponta para mulheres e jovens de baixa renda que residem nas periferias urbanas do país.

Além disso, também é apontada a importância do eleitorado idoso facultativo apto, aquele com 70 anos ou mais, que atualmente são 17 milhões de pessoas. Apesar de uma queda em relação ao não comparecimento em 2022, o número deste ano ainda representa um montante de 8,45 milhões de votantes.

Outro ponto que pode desmobilizar a presença de eleitores às urnas é a ausência de segundo turno em 21 das 27 unidades federativas do país, com as pessoas escolhendo apenas o presidente nessas localidades.

Com o cenário definido para o comando estadual nos quatro maiores colégios eleitorais do país — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia —, é destacado o esforço dos candidatos para que não se perca o engajamento desses eleitores no segundo turno.

“É muito comum que a ausência da disputa local reduza a mobilização política. Lula e Flávio precisarão manter suas bases estaduais mobilizadas, mesmo sem o impulso das campanhas para governador”, diz Medeiros.

Já para Dolci, o cenário polarizado no país e a intensidade da eleição presidencial podem fazer com que as pessoas compareçam às urnas, mesmo em localidades que não contaram com eleições para governador.

“A hipótese é que a presença de duas disputas relevantes produza estímulos adicionais para votar, mas a intensidade da eleição presidencial pode compensar essa ausência”, completa.

Multas não motivam comparecimento e solução vai além das campanhas

No caso de ausências injustificadas, a Justiça Eleitoral estabelece alguns impedimentos a esses eleitores, como o pagamento de multa de R$ 3,51 a cada turno não votado, além da limitação de obter o passaporte, fazer matrículas em estabelecimentos oficiais de ensino, tomar posse em concurso público, entre outros.

Além disso, caso o eleitor não vote em três turnos seguidos sem justificativa, o título estará sujeito a cancelamento. Segundo dados de 2025 do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), mais de 5 milhões de eleitores tiveram o direito de votar suspenso por esse motivo.

Tal número não entra na contagem de abstenções, o que aumenta ainda mais o montante de pessoas que não comparecem às urnas para eleger os seus representantes e podem mostrar uma questão mais ampla.

“Esses cancelamentos mostram que existe um problema de afastamento persistente, embora não possamos afirmar que todos esses eleitores tenham decidido conscientemente abandonar a participação política”, destaca Dolci.

Para reverter esse grande número de abstenções, assim como a quantidade de registros cancelados, os especialistas ouvidos apontam que a multa e outras restrições não são necessariamente efetivas e não causam um efeito de incentivo para o exercício do sufrágio.

“O desafio institucional tem três dimensões: reduzir os obstáculos concretos ao comparecimento, ampliar a educação política e fortalecer a confiança nas instituições. Mas o TSE não consegue resolver sozinho uma crise de representação que depende também dos partidos e dos candidatos”, cita Renato Dolci.

Ambos concordam que as ações devem seguir para além de campanhas institucionais de conscientização do direito ao voto, assim como a obrigatoriedade da participação. É destacada a necessidade da educação dos jovens nas escolas, com o devido destaque à importância das eleições e escolha dos candidatos para o exercício da democracia.

“O enfrentamento da abstenção exige mais do que campanhas publicitárias às vésperas das eleições. É necessário investir permanentemente em educação cidadã, principalmente nas escolas, para que as novas gerações compreendam o funcionamento das instituições e a importância do voto na transformação da sociedade”, finaliza Murilo Medeiros.