Conflito de gestão entre Florianópolis e São José alimenta o caos na ‘Faixa de Gaza’
A divisão territorial entre Florianópolis e São José evidencia os graves entraves da administração pública na Grande Florianópolis. Conhecida popularmente como “Faixa de Gaza”, a área próxima à avenida Josué di Bernardi é marcada por uma separação rígida de atribuições que envolve duas prefeituras, duas guardas municipais e dois batalhões da Polícia Militar, o 22º BPM (Continental) e o 7º BPM (São José).
Choque de diagnósticos entre Florianópolis e São José É justamente no hiato dessas divisões administrativas e policiais que o problema persiste e se alimenta. De um lado, São José aponta a existência de uma engrenagem que sustenta a permanência do grupo no local: furtos no comércio de Campinas e Kobrasol, compra de entorpecentes na comunidade Chico Mendes e receptação em ferros-velhos ativos na margem florianopolitana.
Do outro, Florianópolis defende que a responsabilidade é compartilhada e foca a atuação no reforço do videomonitoramento, em rondas ostensivas e na limpeza de resíduos. Apesar de a área já ter sido objeto de um plano cooperativo intermediado pelo MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), que previa o revezamento de limpezas, plantio de mudas nativas e presença ostensiva de policias, a eventual “solução” dos problemas culminou no arquivamento recente dos inquéritos civis da 11ª Promotoria de São José e na 30ª Promotoria da Capital.
A divergência sobre como sufocar o problema revela a falta de sintonia nas tarefas. Para o secretário de Urbanismo e Serviços Públicos de São José, Michael Rosanelli, a solução depende diretamente de ações mais duras do município vizinho.
“Em São José nós fechamos todos os ferros-velhos de Campinas e Kobrasol. O principal problema hoje para São José é que Florianópolis não toma as medidas adequadas para fechar os ferros-velhos do lado de lá”, entende.
Já a vice-prefeita e secretária de Segurança Pública de Florianópolis, Maryanne Mattos, rebate a ideia de omissão e destaca a complexidade de gerir uma área limítrofe, justificando inclusive a recente lacuna no monitoramento eletrônico do viaduto.
“Ali é um comércio local que mistura as duas cidades. Eu não vou jogar a responsabilidade para São José. Durante a troca de equipamentos da central da Guarda Municipal deu esse gap no monitoramento, mas já retomamos a presença física ostensiva”, diz.
Comerciantes e o impacto no cotidiano Entre os comerciantes da região, o discurso é semelhante. Existe uma espécie de “tratado” (estabelecido por uma facção que atua nas imediações) que impede furtos ou crimes patrimoniais naquele raio.
Por outro lado, existe o incômodo com a presença e o comportamento das pessoas em situação de rua que, além da sujeira deixada em todos os sentidos, alguns mais “exaltados” se excedem na abordagem e geram uma sensação de insegurança de uma maneira geral. Outro desafio é que as pessoas, também inquietas pela eventual presença policial, acabam se espalhando entre as imediações do rio Araújo, a Josué di Bernardi e as marginais da Via Expressa (BR-282).
“Toda manhã é a mesma coisa, antes de abrir a loja, eu preciso lavar as calçadas com água corrente pois eles fazem tudo o que tu imagina aqui”, desabafou o dono de uma loja de carros que não quis se identificar.
Desafios no patrulhamento e na assistência social O gargalo se estende ao patrulhamento militar. Só pelo lado do 22º Batalhão de Polícia Militar, são 1,4 mil abordagens compartilhadas só na região continental. Contudo, o comando do 22º BPM lembra que focar o efetivo de maneira fixa no limite entre os municípios desfalca o policiamento em outras áreas, gerando o inevitável “efeito balão”.
“Quando a gente começa a ser enfático ali no viaduto, eles descem para o Jardim Atlântico e passam a praticar crimes. Tenho que atender toda a área do batalhão, se intensificar abordagens apenas ali, corremos o risco de desassistir outras áreas”, explicou o major Adriano Faria, comandante do 22º BPM.
A polêmica atinge o ápice na gestão social. A Secretaria de Assistência Social de Florianópolis mantém a DOA (Diretoria de Operações e Assistência) atuando quatro vezes por semana no local. Ao mesmo tempo, apura denúncias sobre o transporte clandestino de migrantes em situação de rua vindos do interior do estado e de outros pontos do país.
“Temos denúncias de ‘desova’ de pessoas vindas de outras cidades. Estamos monitorando com inteligência e atuando com a PRF (Polícia Rodoviária Federal) para mapear e autuar empresas que fazem esse transporte.”, acrescentou Maryanne Mattos.
Em São José, a avaliação é de que ações assistenciais sem acolhimento compulsório atraem um público flutuante estimado entre 600 e 700 pessoas, enquanto as prefeituras enfrentam limitações impostas pelo Judiciário.
“Criamos lei para apreender carrinhos de supermercado e fazemos fiscalização diária, mas enfrentamos Ação Civil Pública da Defensoria Pública. Fiscais atuam no limite da legalidade levando pedradas. Sem ação conjunta permanente, qualquer medida isolada é enxugar gelo”, observou Michael Rosanelli, Secretário de Urbanismo de São José.
Enquanto as duas cidades continuarem operando de forma isolada, a divisa permanecerá como um símbolo da desintegração metropolitana, onde as problemáticas urbanas apenas mudam de calçada.



