Importação de fertilizantes nitrogenados segue com forte atraso
Análise aponta que volume de insumos não será normalizado a curto prazo, afetando o planejamento da safra de milho e cana-de-açúcar.

O setor agrícola brasileiro enfrenta um cenário de restrição na oferta de fertilizantes nitrogenados, como a ureia e o sulfato de amônio. Atualmente, o ritmo de importação desses insumos registra um déficit de aproximadamente 25% na comparação com o mesmo período do ano anterior. De acordo com o Rabobank, a expectativa é de que esse volume não seja totalmente recuperado até o encerramento de 2026, o que gera preocupações sobre a disponibilidade de nutrientes para culturas estratégicas, incluindo a segunda safra de milho e os projetos de renovação de canaviais.
Dificuldade de recuperação no curto prazo
O desafio logístico e comercial é visto como estrutural para o restante do calendário. Sobre a possibilidade de reverter esse cenário, o posicionamento dos especialistas é cauteloso. “Eu não acredito que a gente vai conseguir tirar esse atraso até o final do ano”, afirmou Bruno Fonseca, analista de insumos do Rabobank, durante coletiva de imprensa.
Apesar da perspectiva negativa, o analista ressalta que, caso não ocorram novos conflitos geopolíticos ou uma escalada nas tensões atuais, o mercado pode ensaiar uma leve recuperação. No entanto, a combinação de custos produtivos elevados com a demanda interna deve atuar como um fator de pressão sobre os preços dos fertilizantes nos próximos meses.
Impacto dos custos e comportamento do mercado
Um dos principais vetores de alta nos preços é a valorização do gás natural no mercado europeu. O preço de referência TTF, que anteriormente girava em torno de US$ 30, chegou a se aproximar de US$ 100 por megawatt-hora recentemente. Como o gás é um componente essencial na fabricação de nitrogenados, essa variação inflacionária é repassada diretamente ao produto importado pelo Brasil.
Pelo lado da demanda, o avanço da semeadura da soja no país pode mudar a dinâmica de compras. Marcela Marini, analista de grãos do Rabobank, explica que a cautela dos produtores estava atrelada a possíveis atrasos no plantio da soja, fenômeno comum em anos de El Niño. “Talvez agora, com esse avanço bem expressivo do plantio da soja, principalmente no Mato Grosso, a gente possa ver o produtor mais interessado no produto [fertilizante nitrogenado]”, afirmou.
Projeções para 2027 e necessidade de reposição
Apesar das dificuldades atuais, o cenário para o próximo ano é de otimismo moderado. O Rabobank projeta que as entregas de fertilizantes alcancem 46,64 milhões de toneladas em 2027, um incremento de 5% frente à estimativa de 44,42 milhões de toneladas para este ano. Vale lembrar que o mercado brasileiro atingiu um volume recorde de 49 milhões de toneladas em 2025, e a redução observada agora também reflete um ajuste natural após esse pico histórico.
Fatores externos, como o conflito no Oriente Médio e o fechamento do estreito de Ormuz, foram determinantes para elevar os custos e desestimular a compra de insumos. Contudo, a necessidade de manter a fertilidade do solo deve impulsionar o consumo em breve. Segundo Fonseca, os produtores não podem sustentar a redução da adubação por muito tempo, especialmente em relação ao fósforo, sob o risco de comprometer a produtividade das áreas cultivadas a longo prazo. A estabilização das margens agrícolas deve ser, portanto, o motor para a retomada do consumo em 2027.


