Proposta de André Lara Resende para economia gera debate no mercado
Plano do economista inclui corte drástico na taxa Selic e criação de um novo conselho para metas do Banco Central.

As ideias apresentadas recentemente pelo economista André Lara Resende, um dos nomes históricos do Plano Real, voltaram a agitar o cenário econômico brasileiro. O conjunto de medidas ganhou forte repercussão após relatos de um encontro entre o especialista e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acendendo alertas entre analistas e agentes do mercado financeiro.
Mudanças na taxa Selic e no Banco Central
O ponto central do plano envolve uma redução expressiva da taxa Selic, que cairia dos atuais 13,75% para 7,5% no período de um ano, estabilizando-se posteriormente entre 3,5% e 5,5%. Além disso, o projeto sugere a criação de um conselho fiscal e monetário encarregado de estipular as metas do Banco Central, o que gerou debates sobre a autonomia da autoridade monetária.
“Hoje o Banco Central tem justamente o mérito de tomar decisões difíceis, muitas vezes impopulares, pensando em garantir a convergência da inflação para a meta. Isso roubaria do Banco Central a liberdade para fazer o que ele precisa fazer”, afirmou Lucinda Pinto.
Como alerta sobre os riscos de ingerência política na instituição, foi citado o caso internacional. “A inflação da Turquia foi para 85% ao ano e a taxa de juros passou de 50%.”
O uso das reservas internacionais e o PIB
O plano também contempla a utilização das reservas internacionais do país, estimadas em US$ 360 bilhões, como instrumento para conter a valorização do dólar em cenários de fuga de capitais estrangeiros. No entanto, especialistas ponderam que tal estratégia pode gerar um efeito reverso e esgotar os recursos rapidamente.
“Toda vez que o Banco Central tenta usar reserva para controlar a saída de investidor estrangeiro, aí é que o mercado vai embora”, pontuou Lucinda.
A respeito da dívida pública, Lara Resende defende que os juros elevados são os principais vilões e que suas propostas gerariam uma economia equivalente a 4% do PIB anualmente. Contudo, críticos apontam que a estratégia pode abrir espaço para uma inflação mais alta.
“Existe uma possibilidade de fazer um ajuste fiscal pela inflação. Quando a moeda vale menos, naturalmente o gasto do governo fica menor e isso faria o ajuste”, explicou a analista.
Foco na receita versus controle de despesas
O debate também alcançou a esfera fiscal com reações de aliados do governo. Sérgio Gabrielli endossou as diretrizes e propôs focar no aumento da arrecadação e no combate à sonegação.
“São medidas que continuam olhando para a receita e não para a despesa, não atacam o crescimento da despesa obrigatória, aquelas que o governo tem que pagar não importa como”, destacou Thais Herédia.
Apesar da baixa probabilidade de que ideias tão heterodoxas sejam adotadas integralmente, o ambiente de incerteza continua preocupando especialistas sobre a trajetória fiscal do país.



